O lutador – Carlos Drummond de Andrade

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Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entretanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor

me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

(Carlos Drummond de Andrade. Fonte)

Lilás

Sentei ao sol daquela manhã sentindo a brisa que quase sopra entre as ruas que quase se cruzam. O lilás pintava as ruas já no início da primavera, no céu das árvores altas e no chão. Vendo o céu azul colorir a imensidão lilás que me perseguia, desci as ruas, cruzando as esquinas que pintavam meus pensamentos. O barulho ecoava na cidade que, de tão grande, não era capaz de ouvir meus silêncios. Mas eu descia ainda assim, tentando entender aquele verso gente-demais-falando-demais-alto-demais-vamos-atrás-de-um-pouco-de-paz, pensando que ali no meio do lilás eu me lembraria das estrelas que aquela cidade grande não me deixava ver. E não via, por vezes adoecia, outras vezes doía, mas aquelas manhãs de sol compensavam. O vazio me aterrorizava e o sol calorosamente me erguia para as cores das árvores que coloriam aqueles cinzas tão bravamente. Eu pedi talvez por saudade ou por vontade ou por falta e medo do vazio. Pedi pelos versos que quase se escutam e por aqueles que quase se perdem. Pedi pelas poesias que quase se entendem e pela primavera de abril que aquele cinza desconhecia. Mas o Lilás estava lá colorindo e eu pedia. Insistia. Não vá embora.

 
Não vá. Não vá antes que eu entenda por que uns passam tanto frio e fome. Não vá antes que eu conheça aquela loja de música e compre um CD só pra me lembrar da magia das coisas que um dia já foram únicas. Por isso não vá antes que eu mostre a simplicidade das coisas únicas que quase nunca se compreendem porque os cinzas quase nunca não deixam ver. E, por favor, não vá embora antes que eu veja o Guaíba e tenha a sorte de entender o que Caio entendia. Não vá, Lilás, não ouse partir com tanta incompreensão daqueles que não compreendem sua forma de arte. Perdoe-os porque foi Quintana que disse que poesia não se entrega mesmo que você saiba que por trás das pétalas lilás que caem ao chão existe uma vida a ser descoberta. Uma vida a ser vivida.

 
Perdoe-me, Lilás, se por vezes eu te olhar demais e esquecer que poesia e medo são faces da mesma moeda. Insisto porque daqui te olho por alguns instantes desejando inconscientemente que alguém me veja ali parada e quem sabe um outro alguém também cheio de esperanças pare e olhe para o mesmo horizonte que o meu desejando que um outro alguém também perceba a clareza e a grandeza dos horizontes que quase nunca são vistos e quem sabe assim a gente poderia parar só por um instante para contemplar as coisas não vistas e perceber que o tempo já cantavam eles não para não para não para e daqui desse lado olhando pro Lilás a gente pede por tempo e o tempo às vezes a gente esquece que também está cheio de vida feito as pétalas lilás que caem pedindo implorando para que entendam que existe eu juro que existe vida pode acreditar eu sei que temos todo o tempo do mundo e canto e rezo porque sou feita de Lilás e horizontes já que aqui o sol me aquece porque se sou poesia também sou esperança porque posso jurar que por trás do cinza e dos sinos e das esquinas e do calor e dos que passam e dos que cantam e dos que lutam pelas vírgulas e dos versos e dos cantos e dos sonhos e de mim agora e depois e dessas pétalas que me dizem que por trás do Lilás que insiste em me ensinar eu acredito e posso jurar e jurarei que existe vida nas coisas simples, meu Deus, será que existe?

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

A Independência

Tinha os olhos mansos. Eram azuis, talvez verdes, notei dourados certa vez; não sabia o certo porque isso dependia se o dia estava querendo chover ou não. Não, não. O frio não importava. Ele ficava lá sentado observando a vida que passava mais rápido nos dias de semana. Não que a Independência fosse sempre rápida, não foi isso que quis dizer. Lá o movimento insistia em desaparecer quando a noite chegava, mas isso também não importava. Não para ele.

Julgas errado pensando que os dias são sempre os mesmos. Sentado lá, ele via que não. Porto Alegre avisava quando ia chover porque, justo antes da chuva, o ar ficava tão denso que o chão chorava e as senhoras logo fechavam as janelas mesmo sem o aviso do céu. Dizem que a culpa é do Guaíba. Hoje sei que quando se decide amar Porto Alegre, a gente se condena a saber quando a chuva vem. Ele sabia quando ia chover porque quando eu perguntava “você não tá com frio aí sentado?”, ele sorria porque nós dois sabíamos que não. Frio mesmo fazia nas pessoas que passavam por ali, viam-no sentado, de pernas e braços cruzados, vestindo um suéter marrom, os cabelos brancos para trás e aqueles olhos gentis (eu disse mansos?). Frio mesmo fazia quando os olhos azuis e verdes por trás dos óculos eram, imagine só, só olhos.

O chão não era frio porque tinha jogo do Inter ou porque, justo naquele espaço, entre um pilar e outro, entre uma escada e outra, entre um dia e outro, o sol aparecia na avenida e, lutando com todos aqueles prédios altos, decidia esquentar aquele ladinho do prédio em que ele sentava. Não era por causa disso que o chão não era frio. Também não era porque tinham reflorestado a Redenção, ou porque tinha chovido um dia antes, ou porque já era quase hora do café, ou porque a erva já estava na cuia esperando esse conto ser escrito pra ela poder se esfriar. O chão não era frio e eu não o compreendia. Também não compreendia a dança das árvores da Gonçalo que dançavam só por serem bonitas, nem o cinza de chuva da João Telles. O chão não era frio assim como a poesia também não é. E isso bastava.

É certo que, lá pelas 17h, os carros passam pela Independência sem saber que às 20h vai ter um show de rock ao lado, com as bandeirolas do nordeste, com os pratos de Minas e o lenço e bombacha pra vestir. Isso tudo porque, uma semana antes, gritaram pra Esquerda e na próxima semana gritariam pra Direita também. Chega nessa época e nem as avenidas mais bonitas ficam impunes à insatisfação. Ao meio dia tem teatro, e quem perder, que pena, só lê os cartazes. Deve existir uma lei maior que obriguem grandes avenidas a terem cartazes, porque era disso que a Independência se coloria. De um lado música, do outro poesia como se poesia fosse só uma coisa escrita nos postes. À noite ficava tão frio que bastava abrir as janelas para não querer sair, mas tem gente que saía. Eu hesitava porque os prédios escondem as estrelas de Porto Alegre, e sem elas nem o mais insano poderia se guiar. Imagino que seja por causa disso que ele sentava naquele chão quente. Sem estrelas, só restaria esperar. E ele esperava.

Passavam estudantes, mercedes, fuscas, casais, amigos, pássaros voavam e cachorros sentavam. Passava o dia, a frente fria, a música certa, o tempo e ele insistia. Passava a Cláudia, a Joana, o Alberto e certa vez o Rafael com a camisa do Grêmio pra ele fazer piada. Passava o empresário, o cronista, o amigo, o vizinho, o vestibulando, o que catava as latas na rua e o que ganhava pra ver a rua passar. Passava um, dois, quatro governos e os muros ficariam pichados, disso só ele sabia. Passavam setembros e novembros e ele cantaria “no meio do alvoroço tive um lenço no pescoço que foi bandeira pra mim” mesmo que só ele enxergasse a beleza daqueles versos. Passava a tempo, a Cláudia, a Joana e o Alberto e os pássaros voltavam, mas ele ficava. Ficava calorosamente e apaixonadamente vendo a vida passar. E, naquele momento, quando eu descobri os olhos azuisverdesdourados, percebi que o calor do chão era feito de vida. A vida que passava. A vida que ele via. A vida que ele escolhia viver.

E, sabiamente, vivia.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

Uma homenagem ao amigo de cabelos grisalhos e olhos gentis que vê a poesia de uma avenida. 

Primeira Carta de Rainer Maria Rilke

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Paris, 17 de fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, – seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, “Minha Alma”. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema “A Leopardi” talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem – usando da licença que me deu de aconselhá-lo – peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento.

Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, – o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou. Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas e perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke

(A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke – Rainer Maria Rilke. Fonte)

Carta a um jovem poeta (por um não poeta) – Paulo Avelino

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Caro Caio,

Você tem catorze anos e revela que quer ser poeta. É uma boa idade para isso, e não digo isso poeticamente (!), mas por que com essa idade você terá tempo para se aperfeiçoar. Há grandes poetas que se decidiram aos nove. É uma boa idade a sua.

Você enviou um poema falando de mães. Mães são um tema válido. Namoradas são um tema válido. A pátria, também. Pulgas, cachorros vadios, latas enferrujadas que um menino de rua chuta distraidamente na calçada, a derrota do meu time, as proezas do arcanjo Gabriel no combate aos demônios, tudo isso são temas válidos.

Dizem que Churchill, quando pediram que dissesse uma mensagem à juventude, disse apenas: “Nunca se dêem por vencidos. Nunca, nunca, nunca…” Eu poderia dizer algo parecido: “Não confunda o tema com o poema. Nunca, nunca…”

O tema é uma coisa, o poema é outra completamente diferente, e as virtudes de um simplesmente não se comunicam para o outro. Se você escreve um poema e as respostas que você tiver se referirem ao tema, elogiando o tema, tome isso como sinal de que está no caminho errado.

Por isso, não precisa se preocupar em escolher Os Grandes Temas (assim mesmo, com maiúsculas): Amor, Mãe, Morte, Solidão… O que não significa que sejam proibidos.

Pense em quantas pessoas já passaram por esse mundo antes de você. Quantas pessoas escreveram. A cada dia eu me surpreendo mais com quanta coisa maravilhosa se encontra escondida em prateleiras de bibliotecas. Será que essas pessoas deixaram algum tema original, não tocado, para você? A resposta é não. Todos os temas, caro Caio, já foram explorados (e muito bem explorados) por gente muito boa. E isso não é de hoje, creio que quando os gregos entraram em decadência todos os temas já tinham sido devidamente visitados.
Então, há algum sentido em escrever hoje? Por que não ficamos simplesmente reeditando e lendo as maravilhas do passado?
Porque as coisas precisam ser ditas e reditas de forma nova e impactante. As palavras e expressões são como facas, elas se desgastam. E a mesma coisa precisa ser dita de outra forma, de uma forma original. Esse é o sentido de você escrever, é o sentido de qualquer um escrever.
Diga as coisas de forma original. Invente metáforas novas, comparações inusitadas. Existe um veneno para o poema ou para qualquer tipo de literatura, que se chama lugar comum. Não diga que sua amada é linda e você não poderia viver sem ela. Não diga que se sente só. Ou melhor, diga… mas de forma original, nova.
Outro Nunca: não veja a poesia como expressão de sentimentos ou expressão do seu eu ou coisa parecida. Poesia é uma arte, é um fazer, é um trabalho. Se diante de um poema seu uma pessoa elogiar a sua pessoa, do tipo “que pessoa linda que você é” aceite educadamente, mas sempre se conscientize de que essa pessoa elogiou um autor que não é você, é o autor do poema, que não se confunde com você pessoa física. Vou tentar explicar melhor.

Existiu um poeta português no começo do século que escreveu alguns dos poemas mais conhecidos da língua. Além da qualidade indiscutível do seu trabalho esse poeta tinha um diferencial em relação a outros grandes poetas, ele escreveu coisas importantes sobre o fazer poético. Ele disse uma coisa bem conhecida mas que muita gente boa passa por cima: “o poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”. Ou seja, você não precisa estar apaixonado para escrever um poema de amor. Você pode escrever um belo poema de louvor a Deus e ser um ateu. Sobre a pátria e não ser patriota. Quem tem de ficar com/movido com o seu poema é o seu leitor, não você! Assim, se alguém lhe diz que você é uma pessoa linda, ou uma bela alma, pense assim, a pessoa que eu fingi ser é linda, não necessariamente eu. E como diz o poeta, essa pessoa (ou essa Pessoa) fingida pode ser até você mesmo, e nem por isso será menos fingimento! Não precisa fazer de sua poesia um strip-tease das próprias emoções. Esse poeta tem uma frase cortante a respeito: “Sentir? Sinta quem lê!” Claro que você sabe que estou falando do velho Fernando.

Você está tendo, e terá por algum tempo, aulas de literatura. Saiba que seu professor de literatura vive noutro mundo, bem diferente do seu. Não se trata de inferioridade ou superioridade, apenas de tarefas e visões diferentes. O professor, ou qualquer crítico, tem uma função de analisar e depois fazer uma síntese. Ele busca dar um significado. É a função dele. Ele chega ao macro. Você tem de partir do micro. Atribuir grandes significados não é tarefa sua. Você tem que buscar uma técnica. E com o tempo você dominará essa técnica, você ficará à vontade com ela, brincará com ela (como sempre gostamos de brincar com algo que fazemos bem), e as sínteses devem primordialmente ficar a cargo de outros. Seu professor, por exemplo, dirá que tal poeta “é a autêntica expressão do seu tempo”, ou que tal poetisa “expressa perfeitamente a alma feminina”. Nunca tente partir de tais afirmações gerais para a sua poesia. Você poderia ficar pensando “como fazer esse poema ser a expressão do meu tempo, ou dos anseios da minha geração”? Não pense assim. Crie uma técnica, coisas originais, que funcionem, que dêem certo. Para isso precisa ler muito. Leia os clássicos e fique atento ao que foi publicado hoje na resenha do jornal. E as grandes sínteses do significado da sua poesia, deixe para os outros.

Bem, é isso. Você escolheu ser poeta. É uma vida difícil. Mas qual não é? Se você me dissesse que queria ser médico eu diria a mesma coisa, analista de sistemas, a mesma, professor… engenheiro… Você vai navegar num mar de amadorismo e muitas vezes vai se sentir imensamente só. Mesmo que esteja cercado de mulher, parentes e amigos e pessoas que o amam, sua solidão profissional vai tão espessa que você vai poder até tocá-la. E os resultados vão demorar, talvez quando surjam você nem esteja mais interessado em louvores dos outros. Mas se é chamado é chamado, e nisso eu não diferencio a literatura de qualquer outra profissão. O cara tem uma tendência para aquilo. Se vai ter determinação e coragem para atender o chamado é outra história. E sequer você pode se orgulhar de ter vocação. Não foi você que escolheu, foi escolhido, e portanto não é mérito.

Enfim, coragem, firmeza e paciência.

Abraços,

Paulo Avelino

(Texto encontrado no Guia de Produção Textual. PUCRS)

Os olhos

“Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que ‘desse certo’, caso contrário deixaria de escrever. Pode ser.”
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido. Porto Alegre, 1979)

A primeira coisa que viu foram os olhos.

Não saberia dizer se eram verdes ou castanhos. Ficava olhando de longe, tentando decifrar a incógnita que se escondia por trás de cílios que faziam sombra aos pássaros, perdendo a contagem dos fios que se perdiam entre si. Mais tarde descobriria que a cor certa era o cinza, aquele tipo de cinza que acompanha as árvores da João Telles em dia de chuva. Pensava que nunca tinha visto aquela cor até vê-la pela primeira vez. Depois que viu soube que não haveria mais volta, sem saber que é essa a sina dos que veem olhos como aqueles que, por um maldito ou bendito acaso – ainda não ousou definir -, naquele dia como qualquer outro, viu. Poderia ter olhado pela primeira vez tudo, mas não os olhos, ah, não os olhos, típicos daqueles oblíquos e dissimulados que tanto afetavam os livros que lia e que agora lhe afetavam, prendendo a dúvida cruel: seriam verdes ou azuis? As mãos eram pequenas, sim, macias como pétalas, e deviam ser leves também, o tipo de leve que te agarra e flutua, e descobriria mais tarde que sim, sim, era assim mesmo. Sentiu o perfume que lhe esquentou o peito pensando que verde não podia ser azul, e pensou que nada estava errado por causa das pétalas que caíam caíam caíam e agora dominavam aquele vazio que ainda desconhecia dentro de si. Poderia olhar os fios escuros que caíam sobre a testa, pesados e grossos feito espuma que deixa o mar, e que às vezes se moviam em sintonia com os olhos que se curvavam diante daqueles lábios que tão abertamente calorosamente lindamente sorriam. Lábios doces, descobriria mais tarde também. Poderia enxergar qualquer coisa, mas viu primeiro o verde ou o azul ou o castanho e não teve mais volta depois de descobrir que eram cinza os perigosos e sedutores olhos que poderiam encantar qualquer um que tivesse a coragem de vê-los. Brilhavam naquele momento quando pensava no azul ou no verde mas será que não seria dourado e o problema estava exatamente em tentar ver os olhos em um mundo que ninguém vê quase nada. Porque os olhos estavam lá, isso sabia. E com eles estava lá aquele brilho rodopiando e tocando seus abismos, aqueles mesmos abismos que prendiam uma poesia dentro de si como um pássaro em tempestade calma, dona daquela chuva passageira que passa, passa, e às vezes não passa nunca. Mas os olhos estavam lá e bastou vê-los para que, sim, soubesse. E soube. Respondeu silenciosamente calorosamente com os seus, que não eram iguais àqueles olhos, porque sabia bem que poesia não se entrega, mas depois que se vê, meu bem, corre-se o risco de brilhar intensamente, você me entende?

E brilhou.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

Mulher

Mulher, mulher
Com suas graciosas volúpias
Disfarça a beleza que lhe é própria
Nos quadris e no côncavo do olhar
Quem me dera por um acaso
Mulher me tornar

Carrega na pele a maciez dos céus
No olhar de serpente a alegria de criança
Nas mãos finas sua força incontestável
E no peito o calor das estrelas
Quem me dera compreendê-las!

Neste universo próprio de uma mulher
Uma só consegue ser todas
São Capitus, Iracemas e Aurélias
Todas são uma
E uma são todas

São mães, amigas, amantes
Páginas de lembranças de ti
E a ti cabe lembrar de seus amores
Que maiores não encontraste por aí

Não sejas ingênuo, querido
Compreender seus mundos é tarefa dos dignos
Mostraste miserável soberania
Afastaste de ti a beleza dos campos
O perfume da vida
A brisa do céu
E o calor divino de mãos macias
Que, de tão puras,
Em vão sequer conhecerias

Quando o mundo dos primitivos perceber, enfim
Quando as barreiras impostas derem por fim
Quando viver e ser for seguro
Então
Sim!
Restará vivenciar a poesia
Que encontrarei dentro de mim

Livres, por fim
Farão do horizonte campos poéticos
Darão às sombras das laranjeiras o calor do orvalho
E à Lua o brilho dos olhos

Não tenhas medo deste mundo
Que com tanta beleza se esconde
Por debaixo de palavras rudes
Que te ensinaram a gritar com tanta fé

Acorda, enfim, mundo querido
Conheças uma e defenderás todas
Todas são uma
E uma são todas
Cansadas, sonhando
E sendo a razão das mais belas poesias
Mulher,
Mulher.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

8 de Março. Dia Internacional da Mulher.