O pinheiro: uma metáfora

  Havia um pinheiro de natal no meio do corredor. Fitou-o por alguns segundos. Me deixe falar do pinheiro, porque preciso dizer te dizer, José. Não havia nada demais nele porque nele havia tudo. Você diria que isso é mágico, mesmo que fosse triste, já que ninguém compreende os paradoxos mais incomuns. Mas me deixe, por favor, falar do pinheiro que havia no meio no caminho.

  O pinheiro, você deve saber, era verde como aquele que comprara certa vez. Lá estava ele, inquieto no meio do caminho, cheio de bolas coloridas e enfeites chamativos que nunca conseguira decorar o nome embora se esforçasse. Luzes cobriam-no por todas os seus ramos. Sorriu porque era assim que essas épocas costumavam ser: cheias de luzes. Tinha tanto brilho azul e dourado que conseguiu fitar as luzes que piscavam só por alguns instantes antes que resistisse à tentação de sentar em frente ao pinheiro azulverdedourado para observá-lo.

Sabia a magia que havia por trás dos pinheiros e por isso se lembrava de todos eles. Havia o que era pequeno demais para tantos enfeites. O que era vivo e verde demais – você teve um desses, imagino – para segurar brilhos como se fosse preciso algum. Se lembrou da aspereza das folhas e dos galhos pesados porque na época suas mãos ainda tentavam se acostumar com o fato de que no início toda poesia costuma ser assim. Se lembrava, mesmo depois de tanto tempo, da maciez dos algodões amassados, selecionados e enrolados, cuidadosamente colocados entre os galhos, mesmo que desse lado do hemisfério não nevasse. Fazer de conta, você sabe, sempre foi a questão mais importante. Se lembrava daquele outro gigante que era preciso ajuda para montá-lo e abri-lo de todas as formas que fosse permitido. Ficava na ponta do pé para colocar o anjinho sorridente naquela tentativa falha de compreender desde cedo que o longe nunca é assim tão longe, você me entende? Sei que sim.

Ela enfeitava o pinheiro com a paciência e o amor de uma artista, mas era a arte de se enrolar que adorava. Preenchendo seus pinheiros com o que fosse, preenchia e preenchia porque de certa forma preenchia-se. Preenchia-se de cartas que chegavam na botinha pendurada do lado de fora. Preenchia-se também das noites iluminadas que ajudou a enfeitar. Preenchia-se do calor que a noite costumava trazer com as estrelas, e do azul que a manhã trazia naquela cidade toda feita de luz. Preenchia-se sem saber que logo se transbordaria em saudade. Chegava sempre naquele momento mágico, pensou, em que se permitia olhar pro céu por horas na tentativa de encontrar as respostas porque dentro de si acreditava que existissem, sim, em algum lugar: deveriam existir. O que bastava era olhar pro céu e acreditar.

Acontece que, sentada em frente ao pinheiro azul no meio do caminho, tentando achar os segredos por trás daquele pinheiro que ainda desconhecia, descobriu nele um enfeite preso. Pausa. Se lembrou dos seus laços, dos seus algodões, dos seus bichinhos simpáticos, dos seus bonequinhos teatrais, das suas bolas coloridas cheias de brilho, dos pingentes, dos sinos. Conheceu muitos enfeites, mas nunca um enfeite preso. Levantou, triste, irritada, assustada, não saberia explicar aquele sentimento que não lera em lugar algum. Fugiu por temor ou incompreensão talvez, porque, naquele momento, não conseguiu ver um enfeite tão bonito preso em um pinheiro que brilhava de maneira tão urgente.

Não entendia sua fuga. Imagine só que absurdo: fugir por incompreensão. Não compreendia, José, mas é que doía feito cair de bicicleta a tentativa de entender por que é que alguns enfeites se escondiam. Aquele era tão belo quanto os algodões de que se lembrava. Aquele tinha tanto pra ensinar quanto as estrelas que pendurava. Havia tanta poesia nele quanto nas cartas que enviava. Incompreensão doía porque desse lado não havia estrelas, pensou. Doía, doía: estava ali o enfeite, preso, escondido, tentando brilhar, lutando contra os galhos que tapavam seus detalhes que já ameaçavam ceder à luta contra todo o verde. Alguns diziam que ele se escondia porque colocá-lo de maneira mais visível em frente aos ramos verdes era ignorar sua fragilidade. Outros diziam que, graças à beleza estonteante do pinheiro, pensar em um enfeite tão comum era perda de tempo. “Comum”, meu Deus, já leu palavra mais triste?

Era preciso ter fé no enfeite. Fé – tentou se lembrar – é pôr a semente no solo sem esperar o pinheiro nascer. A chuva caía e ela corria querendo se molhar. Correndo, sentia o ar dos seus pulmões, quentes e vivos, buscar a esperança. Procurou o caminho porque já o conhecia e foi correndocorrendocorrendocorrendocorrendocorrendo. Encontrou ali o enfeite escondido porque também se lembrava que entender poesia é condenar-se a enxergá-la. Desculpe, José, eu tento falar do pinheiro, mas o enfeite é quem me sufoca. O enfeite, ela via, era uma casinha branca dentro de um globo que nevava. Imaginava que lá dentro haveria chá e calor. Imaginava que haveria estrelas no céu e cartas mais felizes do que as que eu te escrevo já há tanto tempo. Imaginava que haveria versos além dos que já escrevia. Imaginava que se houvesse luz como havia em seu lar, também haveria a paz e o silêncio que há tanto pedia. Imaginava que aquele enfeite de natal, quem sabe, se escondia dentro do pinheiro porque era mais esperto que ela que tão credulamente tentava compreender. Se era frágil, e isso compreendia, não entendia porque também não seria belo.

E que era belo, José, isso ela sabia.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

Um mover de mão – Vasco Gato

Vasco Gato

Longe de ti
estive tão longe de ti
que não pensei sequer lembrar o teu nome
percorri distâncias escuras, estradas imóveis
onde circulava o peso sem cor do esquecimento
e se curvavam as pedras à boca do destino

vezes houve em que dormi sem estrelas
num vazio de astros que me congelava as veias
e me amortecia a vida em poços de água
que a vida não podia tocar – rondavam os lobos

e contava os dias, riscando a minha loucura
nas folhas secas do caminho, escondendo a réstia de sonho
entre as raízes ainda vibrantes das árvores rugosas
conhecia por vezes o movimento quase imperceptível
das grandes estações internas, o estalar da seiva,
o tambor duro onde vinha cantar a melancolia

a solidão assustava-me, queimava-me a pele
no vermelhíssimo lume das mãos dos mortos
quero dizer-te que não mais vi ternura
que os meus pés ganharam idade a um ritmo
que não pude conter, acompanhar, escrever-te

sim, fiz-me não te escrever
para que o meu corpo não ouvisse o vento
e as ondas fossem quebrar ao centro dos oceanos
para que uma palavra não pousasse no teu rosto
e levasse a luz dos teus olhos e a vida nos teus lábios

arranquei de mim a morada que eras tu
desisti dos pássaros, afundei barcos, lâminas,
apaguei o calor dos porões como se uma vela
pudesse perigosamente insistir na permanência
desse mundo que era a minha voz, éramos nós

éramos nós, choro
sinto no enrolar dos dedos o ínfimo do teu nome
a abertura impossível de uma janela de avelãs
as avelãs que nos escutavam (lembras-te?)
enquanto lá fora, fora de tudo, a neve
se abatia sobre o dorso antigo das nossas mães
sobre a dor vencida no embalo dos bebés

estive tão longe de ti
mas deixa que agora te nomeie entre as nuvens
e traga para dentro de mim a pintura das tuas pálpebras
o aroma que era o teu corpo nas manhãs a dois
deixa que venha morrer junto de ti
no ventre do amor que prometemos ao infinito.

(Vasco Gato em Um mover de mão)

Vasco Gato é um poeta português nascido em 1978. Apesar do blog ser direcionado às crônicas, encontrei parte de sua obra por acaso, e não pude deixar de compartilhar um poema contemporâneo com tamanha sutileza e perfeição. Afinal, ainda mais importante do que valorizar os escritores contemporâneos, é ter a oportunidade de admirá-los.

Eufemismo de sílabas

Palavras. Saboreio esse substantivo como se fosse minha refeição favorita. Versos, estrofes, rimas, prosa e conto – temperos que possuem substâncias extremamente viciantes.

Adoro palavras. Como são cortadas, unidas, postas lado a lado; bonitas e chulas, gramaticalmente corretas, separadas em sílabas, classificadas em metáforas ou catacrese em suas frases e contextos, além de outras figuras que tornam minha refeição mais saborosa. Finalmente, são servidas, aproveitadas e requentadas, embaladas, anexadas com enfeites, alguns laços e uma cereja, conquistando um sabor mais íntimo de mim.

São poucos os que possuem habilidade para reconhecer um trabalho bem feito com palavras. Raras são as pessoas que sentem a ansiedade para que um poema termine e a tristeza em saber que ele está chegando ao fim. Difíceis de encontrar são as pessoas que reconhecem o calor do autor, a beleza do significado, a sutileza e o cuidado das pontuações, a adorável confusão de antônimos. Poucas são as pessoas que compreendem o medo e a coragem do autor, imaginam-o sentado em uma varanda azul, criando uma bolha transparente ao seu redor, separando-o da vida, por vezes turbulenta e incompreensível, deixando-o em um mundo totalmente dele, de vírgulas e sinestesias, isolando-o e deixando que cantarole sua canção favorita; ele, ingênuo, aceita compartilhar a melodia e continua no tom mais agudo e desafinado, recebe aprovação e se pega pensando: “É aqui onde devo estar”.

Mário Quintana sabiamente citou “A poesia não deve ser entregue a quem a define”. As palavras têm de ser assim: livres, felizes, mágicas. Entregues em sussurro, em uníssono ou num grito que cega. É esta a magia de um mundo que não possui limites: não há compreensão das palavras. É um constante “Por quê?” sem resposta, um silêncio adorável. Não devem existir interpretações; o que se sente é exatamente a intenção do autor – se é que teve alguma – em libertar as palavras: medo, ansiedade, paixão ou indiferença. As sensações importam, não o entendimento. A beleza está em sentir, não em escrever. Sem perceber, nos aliamos a um mundo desconhecido, porém infinito, que traz o que de mais sincero o mundo deve ter: paz.