O mantra

“Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre.”. Estava lá em letras gritantes, só para que todo mundo que olhasse pra cima pudesse ver. Hipócrates, disseram. Ao meu redor, como copos cheios d’água que quase transbordam, inúmeros profissionais da área médica olhavam as letras gigantes. Eu, não. Não bastou olhá-las. Li e reli, tentando compreender o mantra daquele que atribuímos, desde os primeiros dias da faculdade, o título de Pai da Medicina. Os copos de água sorriam, indiferentes: já reconheciam o mantra, sem lembrar do que seja um mantra. Por sorte ou azar – ainda não ousei definir – eu me lembrava.

De certa forma, antecipo-me e compreendo: quando a ciência se limita diante da doença, vem o consolo. Compreendo Hipócrates, agradeço, saio pela porta de fininho e o incômodo pousa no peito como uma lei. Volto meus ombros, suspiro porque sempre foi mais forte do que eu esse quê de “como?”, e me forço a caminhar até ele, me sento e suplico com um olhar gentil. Ele, é claro, me olha calmo e sorridente com aquela barba branca, com aquelas rugas no canto dos lábios e com aqueles olhos gregos gentis e me cita alguma frase que ele nem ousa dizer. Como consolar, eu perguntaria, se sou feita de poesia?

O senhor de pés cansados que atravessa a faixa da grande cidade com pressa. A criança que se cala porque dói, mas é que é tão difícil reconhecer quando dói se a dor não passa. O colo que não foi dado. A dor que não dá pra ser ignorada. O calafrio que não passa. A hora de ouro que perdeu a luta contra o tempo. A informação não compreendida. Mas também a ausência da informação. O vazio que se torna maior diante da espera. O medo diante da pressa em caminhar por um caminho que nunca vem. A fila de espera, o colchão no chão, o remédio incerto, a falta de luz, a falta de leito, a falta de mim, de ti, dele, a falta de um pouquinho a mais porque só um pouquinho ajudaria, a falta, a ausência, a Lava Jato, a cueca cheia de dinheiro. A fome vencida pela licitação da merenda. O saneamento básico contra um Duplex memorável. Vá devagar, imploro, suplico: pegue a minha mão, senhor. Seu pé dói, eu sei, não posso dizer que compreendo porque não sinto, mas se sentisse eu compreenderia, você sabe que sim. Vamos devagar, não nos afastemos, vamos de mãos dadas. Deixe as buzinas de lado. Deixe a pressa de lado. Console, ninguém está olhando. Console os taciturnos, nutridos de esperança. Console. Ninguém está ouvindo.

Não serei a cantora de uma história; para cantar, tenho mantras. Suspiro ao velhinho que me consola como se compreendesse. Serei poeta de um mundo caduco.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

No futuro será mais fácil sonhar

Tenho uma coisa a te dizer, querida. A porta de madeira abre e você larga a mão da maçaneta, terminando o nó do próprio roupão de seda. Meus fios de cabelo não fazem esforço para impedir as gotas de chuva que insistem em cair. Minhas roupas estão molhadas e você está aí, meu bem, tão perto.

Eu começo a te dizer todas as coisas que percebi enquanto pegava essa chuva. Ah, meu bem, tudo é tão simples agora, por que eu complicaria? Não há pessoas gritando, correndo, se empurrando ou chorando na rua, não há carro acelerando no sinal amarelo. Não precisamos tentar entender os motivos que levam dois aviões a se chocarem contra os prédios porque isso já não acontece mais. Os idosos andam com seus cães na rua pela manhã e há adultos que ignoram a pressa para acompanhá-los segurando suas mãos enquanto caminham pela faixa de pedestre com eles, sem esperar nada em troca.

Ah, querida, você deveria ver como é belo um governo que tanto cumpre o que diz. O exército adotou um novo tipo de arma: o respeito. Ninguém mais pensa em dinheiro ou em bombas; quando as pessoas se desentendem, querida, nós os levamos para uma sala colorida e pedimos perdão uns aos outros porque nos tornamos tão racionais que percebemos que respeitar e dividir o que falta dá certo pra todo mundo. Às vezes a gente relembra aquela canção do John Lennon, “Imagine”, e quando ele citou “Nothing to kill or die for” e nos perguntamos por que é que a música foi nomeada “Imagine” ao invés de “Let’s do it”. Louco, né?

Os policiais estão na rua o tempo todo. Espere! Não se assuste. Eles não estão prendendo ninguém. Eles passam a maior parte do tempo plantando flores. As rosas brancas são tão bonitas, você devia ver… De vez em quando passa uma moça bonita com uma saia colorida e eles cortam uma rosa rapidinho, para entregá-la. Você devia ver a agilidade de corte deles quando a moça tem um sorriso bonito. Ah, meu bem, tudo é tão belo. Não há mais quem proteja alguém que esteja errado por causa de dinheiro. Antigamente cumprir a lei era heroísmo; hoje, todos os advogados estão usando uma estrela no peito pra dizer que, na verdade, eles podem instruir todo mundo a ser herói, e não ensinar a achar um desvio – não o de dinheiro, se é o que você pensou – e sim algum desvio da lei; ninguém mais pensa assim. Há muitas pessoas querendo estudar Direito para usar a estrelinha mais bonita e dizer “Planto o heroísmo”, mesmo sabendo que todo mundo pode fazer isso.

As pessoas adotaram uma rotina engraçada: de manhã todo mundo, inclusive as crianças, pode comer o que quiser. Elas variam de cereais até x-burger (imagine só!). E de noite, alguém faz chá de limão com mel e conta uma historinha para dormir. Só assim, ninguém dorme porque sente fome; todas as pessoas, principalmente as crianças, dormem porque estão suficientemente felizes. No outro dia, todas elas podem sair e brincar até a hora que quiserem no quintal, na casa ao lado, no bairro vizinho, onde acharem melhor. De vez em quando uma mãe ou outra as chamam um pouquinho mais cedo do que o de costume, mas isso não faz mal a ninguém, né?

Você ia adorar, querida. As pessoas deixaram de lado aquele tal de SnapChat, WhatsApp e um tal de Facebook e aderiram ao uso das cartas. É empolgante ver o brilho nos olhos das moças que recebem cartas dos rapazes que vão dormir todo dia pensando. As pessoas pensam, sabe? As pessoas leem. Todas elas. Todas elas sabem como ler desde cedo. Todas elas calculam uma rota para encontrar as mais perfeitas palavras para escrever às pessoas queridas. É muito comum encontrar rapazes que entregam Piscos de Pivil (sabe, a tecnologia superior dos Discos de Vinil) às moças com um bilhete escrito “Pensei em você escutando a faixa 13”. De vez em quando monto alguns Piscos a você, mas fico em dúvida na hora de te enviar porque não sei qual escolher.

Todos adoram receber e enviar coisas, seja para quem for: negros, brancos, pardos, com o olho um pouquinho mais puxado, com uma calça com o número um pouquinho maior, com o número da blusa um pouquinho menor, com o cabelo colorido ou castanho, conseguindo ou não ouvir, sabendo ou não andar. Todo mundo recebe cartas de todo mundo. Ninguém mais tem essa coisa de preconceito. A professora de história às vezes falava dessa coisa antiquada, por isso perdoe-me se eu não souber mais qual é o significado.

Ah, amor, de vez em quando alguém pega um resfriado, tropeça e corta o joelho, bate com o braço na porta assim que passa por ela que fica até roxo, mas aí é só andar uns cinco minutinhos e ir até o médico mais próximo, porque ele estará lá, todo de branco, com um sorriso no rosto, faz uma piadinha ou outra e pergunta “O que aconteceu?” e te dá um remédio, uma picadinha de injeção que dói às vezes, mas logo passa. Tudo passa agora, seja dor de cabeça ou febre. Nenhuma dor dura muito tempo porque todo dia alguém encontra um motivo para ser feliz.

Então eu olho para você, com essa expressão preocupada, na minha frente com esse roupão que tantas vezes eu vi você pendurar depois de dizer “Hoje eu caí no metrô”, sinto mais uma vez a água gelada escorrer nos meus cabelos e te pergunto com dor, com medo e engolindo essa vontade de chorar que destrói o meu peito, sentindo essa vontade que dá sempre de gritar e se questionar sem parar, por que é, meu bem, por que é que é tão difícil assim sonhar?

(Naély Pereira Covre – minha autoria)