Ideia é mulher nua – Sérgio da Costa Ramos

Com aquela prodigiosa sem-cerimônia dos muitos jovens em formularem perguntas encardidas, pegam-me pelo “rabo” e me perguntam assim de bate-pronto: “como é escrever todo santo dia?”. E o pior: “Escrever, do ponto de vista literário, vem a ser exatamente o quê?”.

Responde, tio, sem usar muito laçarote, que a turma quer uma resposta sukinta ou sucinta. Vamos lá.

– Escrever – tento – é ter uma ideia e dar-lhe forma. É, portanto, fundo e forma.

A turma hasteia um olhar de quem continua boiando. Insisto:

– Imaginem, perdoando o jeito machista da comparação, que ideia é uma mulher bonita. E nua. Cabe ao escritor vesti-la. Sendo um estilista, fundará uma grife. A forma, o invólucro é a sua roupa, feita de palavras, colocadas nos lugares certos, para valorizar o busto, os quadris, o bumbum – e deixar partes dessa “ideia” de fora, as pernas, as costas, as coxas, no caso de uma minissaia, minicrônica ou miniconto.

Melhorou. A rapaziada já faz algum som de aprovação. Palmas. Falou em mulher, tudo melhora. Sigo em frente: o que é mais importante, o fundo ou a forma? A mulher ou a roupa? O leitor – que é o juiz do escritor – dirá que “mulher é fundamental”. Ou seja: sem uma boa ideia, nenhum texto prospera. Nua, uma bela mulher se basta e se candidata a uma arquibancada de admiradores. Vestir essa beldade pelada requer cuidados. Não se pode vesti-la demais. Nem de menos.

A má ideia equivale a uma mulher muito feita: sendo perneta, caolha e usando bigode; uma mulher poderá se cobrir de ouro, como uma Cleópatra, que jamais parecerá atraente. Portanto, “forma” e “fundo” devem se completar.

As meninas protestam contra esse negócio de comparar boa ideia com mulher nua. Antes que me processem sobre a acusação de “coisificar” a mulher e de transformá-la em “objeto”, alterno a comparação. Aproveito a renovada mania da Fórmula-1, com nossas esperanças postas em Rubinho Barrichello neste domingo, e transporto o ato de escrever para as pistas.

O motor de uma Ferrari é a ideia. Sua funcionalidade e a resistência constituem o fundo. Já o design de sua carroceria e a aerodinâmica serão a “forma”, as palavras, o macacão que veste o conto, uma crônica ou um romance. O que é mais importante? O motor ou a aerodinâmica? Os dois.

A rapaziada gosta. As meninas aceitam. Melhor assim. Mas advirto:

– É preciso dosar bem as duas coisas, motor (fundo) e carroceria (forma). Senão, o escrito quebra no acostamento, ou tem que se recolher compulsoriamente aos boxes, estante esquecida onde o leitor o arquivará.

Lembro que a arte de escrever não é apenas um conjunto disciplinado de regras gramaticais, retóricas ou poéticas, mas um desempenho expressivo. Uma forma de comunicação em que o escritor se coloca também na posição do leitor. Um escritor brasileiro proclamou certa vez a seguinte heresia: “Quem escreve pensando no que o leitor gostaria de ler e no assunto que poderia tornar agradável a sua leitura, então esse alguém não é escritor, mas um redator de publicidade.”

Discordo veementemente. Escritor tem que ter no leitor um cúmplice. Se ele não escreve pensando no outro lado do balcão, não passa de um narcisista, um chato que só enxerga o próprio umbigo.

Escrever é bom – asseguro à garotada mais chegada ao planeta eletrônico. “Mas melhor do que escrever – diria o torturado purista Armando Nogueira – é já ter escrito.”

O pingo final é sempre bem-vindo, não é mesmo?

(Sergio da Costa Ramos – Jornal Diário Catarinense) 

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