O mantra

“Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre.”. Estava lá em letras gritantes, só para que todo mundo que olhasse pra cima pudesse ver. Hipócrates, disseram. Ao meu redor, como copos cheios d’água que quase transbordam, inúmeros profissionais da área médica olhavam as letras gigantes. Eu, não. Não bastou olhá-las. Li e reli, tentando compreender o mantra daquele que atribuímos, desde os primeiros dias da faculdade, o título de Pai da Medicina. Os copos de água sorriam, indiferentes: já reconheciam o mantra, sem lembrar do que seja um mantra. Por sorte ou azar – ainda não ousei definir – eu me lembrava.

De certa forma, antecipo-me e compreendo: quando a ciência se limita diante da doença, vem o consolo. Compreendo Hipócrates, agradeço, saio pela porta de fininho e o incômodo pousa no peito como uma lei. Volto meus ombros, suspiro porque sempre foi mais forte do que eu esse quê de “como?”, e me forço a caminhar até ele, me sento e suplico com um olhar gentil. Ele, é claro, me olha calmo e sorridente com aquela barba branca, com aquelas rugas no canto dos lábios e com aqueles olhos gregos gentis e me cita alguma frase que ele nem ousa dizer. Como consolar, eu perguntaria, se sou feita de poesia?

O senhor de pés cansados que atravessa a faixa da grande cidade com pressa. A criança que se cala porque dói, mas é que é tão difícil reconhecer quando dói se a dor não passa. O colo que não foi dado. A dor que não dá pra ser ignorada. O calafrio que não passa. A hora de ouro que perdeu a luta contra o tempo. A informação não compreendida. Mas também a ausência da informação. O vazio que se torna maior diante da espera. O medo diante da pressa em caminhar por um caminho que nunca vem. A fila de espera, o colchão no chão, o remédio incerto, a falta de luz, a falta de leito, a falta de mim, de ti, dele, a falta de um pouquinho a mais porque só um pouquinho ajudaria, a falta, a ausência, a Lava Jato, a cueca cheia de dinheiro. A fome vencida pela licitação da merenda. O saneamento básico contra um Duplex memorável. Vá devagar, imploro, suplico: pegue a minha mão, senhor. Seu pé dói, eu sei, não posso dizer que compreendo porque não sinto, mas se sentisse eu compreenderia, você sabe que sim. Vamos devagar, não nos afastemos, vamos de mãos dadas. Deixe as buzinas de lado. Deixe a pressa de lado. Console, ninguém está olhando. Console os taciturnos, nutridos de esperança. Console. Ninguém está ouvindo.

Não serei a cantora de uma história; para cantar, tenho mantras. Suspiro ao velhinho que me consola como se compreendesse. Serei poeta de um mundo caduco.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

O pinheiro: uma metáfora

  Havia um pinheiro de natal no meio do corredor. Fitou-o por alguns segundos. Me deixe falar do pinheiro, porque preciso dizer te dizer, José. Não havia nada demais nele porque nele havia tudo. Você diria que isso é mágico, mesmo que fosse triste, já que ninguém compreende os paradoxos mais incomuns. Mas me deixe, por favor, falar do pinheiro que havia no meio no caminho.

  O pinheiro, você deve saber, era verde como aquele que comprara certa vez. Lá estava ele, inquieto no meio do caminho, cheio de bolas coloridas e enfeites chamativos que nunca conseguira decorar o nome embora se esforçasse. Luzes cobriam-no por todas os seus ramos. Sorriu porque era assim que essas épocas costumavam ser: cheias de luzes. Tinha tanto brilho azul e dourado que conseguiu fitar as luzes que piscavam só por alguns instantes antes que resistisse à tentação de sentar em frente ao pinheiro azulverdedourado para observá-lo.

Sabia a magia que havia por trás dos pinheiros e por isso se lembrava de todos eles. Havia o que era pequeno demais para tantos enfeites. O que era vivo e verde demais – você teve um desses, imagino – para segurar brilhos como se fosse preciso algum. Se lembrou da aspereza das folhas e dos galhos pesados porque na época suas mãos ainda tentavam se acostumar com o fato de que no início toda poesia costuma ser assim. Se lembrava, mesmo depois de tanto tempo, da maciez dos algodões amassados, selecionados e enrolados, cuidadosamente colocados entre os galhos, mesmo que desse lado do hemisfério não nevasse. Fazer de conta, você sabe, sempre foi a questão mais importante. Se lembrava daquele outro gigante que era preciso ajuda para montá-lo e abri-lo de todas as formas que fosse permitido. Ficava na ponta do pé para colocar o anjinho sorridente naquela tentativa falha de compreender desde cedo que o longe nunca é assim tão longe, você me entende? Sei que sim.

Ela enfeitava o pinheiro com a paciência e o amor de uma artista, mas era a arte de se enrolar que adorava. Preenchendo seus pinheiros com o que fosse, preenchia e preenchia porque de certa forma preenchia-se. Preenchia-se de cartas que chegavam na botinha pendurada do lado de fora. Preenchia-se também das noites iluminadas que ajudou a enfeitar. Preenchia-se do calor que a noite costumava trazer com as estrelas, e do azul que a manhã trazia naquela cidade toda feita de luz. Preenchia-se sem saber que logo se transbordaria em saudade. Chegava sempre naquele momento mágico, pensou, em que se permitia olhar pro céu por horas na tentativa de encontrar as respostas porque dentro de si acreditava que existissem, sim, em algum lugar: deveriam existir. O que bastava era olhar pro céu e acreditar.

Acontece que, sentada em frente ao pinheiro azul no meio do caminho, tentando achar os segredos por trás daquele pinheiro que ainda desconhecia, descobriu nele um enfeite preso. Pausa. Se lembrou dos seus laços, dos seus algodões, dos seus bichinhos simpáticos, dos seus bonequinhos teatrais, das suas bolas coloridas cheias de brilho, dos pingentes, dos sinos. Conheceu muitos enfeites, mas nunca um enfeite preso. Levantou, triste, irritada, assustada, não saberia explicar aquele sentimento que não lera em lugar algum. Fugiu por temor ou incompreensão talvez, porque, naquele momento, não conseguiu ver um enfeite tão bonito preso em um pinheiro que brilhava de maneira tão urgente.

Não entendia sua fuga. Imagine só que absurdo: fugir por incompreensão. Não compreendia, José, mas é que doía feito cair de bicicleta a tentativa de entender por que é que alguns enfeites se escondiam. Aquele era tão belo quanto os algodões de que se lembrava. Aquele tinha tanto pra ensinar quanto as estrelas que pendurava. Havia tanta poesia nele quanto nas cartas que enviava. Incompreensão doía porque desse lado não havia estrelas, pensou. Doía, doía: estava ali o enfeite, preso, escondido, tentando brilhar, lutando contra os galhos que tapavam seus detalhes que já ameaçavam ceder à luta contra todo o verde. Alguns diziam que ele se escondia porque colocá-lo de maneira mais visível em frente aos ramos verdes era ignorar sua fragilidade. Outros diziam que, graças à beleza estonteante do pinheiro, pensar em um enfeite tão comum era perda de tempo. “Comum”, meu Deus, já leu palavra mais triste?

Era preciso ter fé no enfeite. Fé – tentou se lembrar – é pôr a semente no solo sem esperar o pinheiro nascer. A chuva caía e ela corria querendo se molhar. Correndo, sentia o ar dos seus pulmões, quentes e vivos, buscar a esperança. Procurou o caminho porque já o conhecia e foi correndocorrendocorrendocorrendocorrendocorrendo. Encontrou ali o enfeite escondido porque também se lembrava que entender poesia é condenar-se a enxergá-la. Desculpe, José, eu tento falar do pinheiro, mas o enfeite é quem me sufoca. O enfeite, ela via, era uma casinha branca dentro de um globo que nevava. Imaginava que lá dentro haveria chá e calor. Imaginava que haveria estrelas no céu e cartas mais felizes do que as que eu te escrevo já há tanto tempo. Imaginava que haveria versos além dos que já escrevia. Imaginava que se houvesse luz como havia em seu lar, também haveria a paz e o silêncio que há tanto pedia. Imaginava que aquele enfeite de natal, quem sabe, se escondia dentro do pinheiro porque era mais esperto que ela que tão credulamente tentava compreender. Se era frágil, e isso compreendia, não entendia porque também não seria belo.

E que era belo, José, isso ela sabia.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

O apagar da velha chama – Luis Fernando Veríssimo

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Eu, você, nós dois, um cantinho, um violão… Da janela, mesmo em Porto Alegre, via-se o Corcovado, o Redentor (que lindo!) e um barquinho a deslizar no macio azul do mar. Tinha-se, geralmente, de vinte anos para menos quando, em 1958, chegou a Elizete com abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim e João Gilberto com o amor, o sorriso, a flor e aquela batida diferente, mesmo que você não pudesse acompanhar e ficasse numa nota só, porque no peito dos desafinados também batia um coração, lembra?

Na vida, uma nova canção, um doce balanço. Era carioca, era carioca, certo, mas a juventude que aquela brisa trazia também trazia pra cá e daqui se via a mesma luz, o mesmo céu, o mesmo mar, milhões de festas ao luar, e sempre se podia pegar um Electra e mandar descer no Beco das Garrafas, olha que coisa mais linda. Queríamos a vida sempre assim, si, dó, ré, mi, fá, sol, muito sol, e lá. Mas era preciso ficar e trabalhar, envelhecer, acabar com esse negócio de Rio, céu tão azul, ilhas do sul, muita calma pra pensar e ter tempo pra sonhar, onde já se viu? Até um dia, até talvez, até quem sabe. O amor, o sorriso e a flor se transformavam depressa demais.

Quem no coração abrigou a tristeza de ver tudo isso se perder, para não falar nos seus vinte anos, nos seus desenganos e no seu violão, nem pode dizer ó brisa fresca, porque nem mais se entende, nem mais pretende ficar fingindo e seguir seguindo. A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só a melancolia que não sai de mim, não sei de mim, não sai.

E dê-lhe rock.

(Luis Fernando Veríssimo. Adaptado. Fonte)

A Independência

Tinha os olhos mansos. Eram azuis, talvez verdes, notei dourados certa vez; não sabia o certo porque isso dependia se o dia estava querendo chover ou não. Não, não. O frio não importava. Ele ficava lá sentado observando a vida que passava mais rápido nos dias de semana. Não que a Independência fosse sempre rápida, não foi isso que quis dizer. Lá o movimento insistia em desaparecer quando a noite chegava, mas isso também não importava. Não para ele.

Julgas errado pensando que os dias são sempre os mesmos. Sentado lá, ele via que não. Porto Alegre avisava quando ia chover porque, justo antes da chuva, o ar ficava tão denso que o chão chorava e as senhoras logo fechavam as janelas mesmo sem o aviso do céu. Dizem que a culpa é do Guaíba. Hoje sei que quando se decide amar Porto Alegre, a gente se condena a saber quando a chuva vem. Ele sabia quando ia chover porque quando eu perguntava “você não tá com frio aí sentado?”, ele sorria porque nós dois sabíamos que não. Frio mesmo fazia nas pessoas que passavam por ali, viam-no sentado, de pernas e braços cruzados, vestindo um suéter marrom, os cabelos brancos para trás e aqueles olhos gentis (eu disse mansos?). Frio mesmo fazia quando os olhos azuis e verdes por trás dos óculos eram, imagine só, só olhos.

O chão não era frio porque tinha jogo do Inter ou porque, justo naquele espaço, entre um pilar e outro, entre uma escada e outra, entre um dia e outro, o sol aparecia na avenida e, lutando com todos aqueles prédios altos, decidia esquentar aquele ladinho do prédio em que ele sentava. Não era por causa disso que o chão não era frio. Também não era porque tinham reflorestado a Redenção, ou porque tinha chovido um dia antes, ou porque já era quase hora do café, ou porque a erva já estava na cuia esperando esse conto ser escrito pra ela poder se esfriar. O chão não era frio e eu não o compreendia. Também não compreendia a dança das árvores da Gonçalo que dançavam só por serem bonitas, nem o cinza de chuva da João Telles. O chão não era frio assim como a poesia também não é. E isso bastava.

É certo que, lá pelas 17h, os carros passam pela Independência sem saber que às 20h vai ter um show de rock ao lado, com as bandeirolas do nordeste, com os pratos de Minas e o lenço e bombacha pra vestir. Isso tudo porque, uma semana antes, gritaram pra Esquerda e na próxima semana gritariam pra Direita também. Chega nessa época e nem as avenidas mais bonitas ficam impunes à insatisfação. Ao meio dia tem teatro, e quem perder, que pena, só lê os cartazes. Deve existir uma lei maior que obriguem grandes avenidas a terem cartazes, porque era disso que a Independência se coloria. De um lado música, do outro poesia como se poesia fosse só uma coisa escrita nos postes. À noite ficava tão frio que bastava abrir as janelas para não querer sair, mas tem gente que saía. Eu hesitava porque os prédios escondem as estrelas de Porto Alegre, e sem elas nem o mais insano poderia se guiar. Imagino que seja por causa disso que ele sentava naquele chão quente. Sem estrelas, só restaria esperar. E ele esperava.

Passavam estudantes, mercedes, fuscas, casais, amigos, pássaros voavam e cachorros sentavam. Passava o dia, a frente fria, a música certa, o tempo e ele insistia. Passava a Cláudia, a Joana, o Alberto e certa vez o Rafael com a camisa do Grêmio pra ele fazer piada. Passava o empresário, o cronista, o amigo, o vizinho, o vestibulando, o que catava as latas na rua e o que ganhava pra ver a rua passar. Passava um, dois, quatro governos e os muros ficariam pichados, disso só ele sabia. Passavam setembros e novembros e ele cantaria “no meio do alvoroço tive um lenço no pescoço que foi bandeira pra mim” mesmo que só ele enxergasse a beleza daqueles versos. Passava a tempo, a Cláudia, a Joana e o Alberto e os pássaros voltavam, mas ele ficava. Ficava calorosamente e apaixonadamente vendo a vida passar. E, naquele momento, quando eu descobri os olhos azuisverdesdourados, percebi que o calor do chão era feito de vida. A vida que passava. A vida que ele via. A vida que ele escolhia viver.

E, sabiamente, vivia.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

Uma homenagem ao amigo de cabelos grisalhos e olhos gentis que vê a poesia de uma avenida. 

A gramática de ir embora

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É preciso partir.

Três palavras que, de tão pequenas, separadas não apresentam sentido algum. “É” é uma certeza, uma afirmação, uma conjugação de um verbo de estado tão poderoso quanto “existir”. Traz a verdade incontestável em suas extremidades: “é que te amo”, explica o confuso; “é hoje”, afirma o ansioso; “é…”, concorda outro sem mais nada a dizer. “É preciso”, no meu caso porque, sem outro verbo ou advérbio, encerro minha própria afirmação e digo, com a força que um cronista tem, que é.

“Preciso”, conjugação do presente de “precisar”, um verbo transitivo que, em sua definição mais simplificada, carrega no dicionário “a necessidade de”. De quê mesmo? De ser? De ter? Não. De partir.

Partir querendo ficar, partir querendo correr, partir querendo voltar, partir querendo fotografar a própria essência da partida em si, só para que ela não se perdesse quando a linha de chegada estivesse já para trás. Falando em verbo, partir está lá. “Fazer-se em pedaços”, está escrito em uma das tantas definições que 6 letras podem magicamente trazer.

Despedaçar-se para caminhar exige coragem. Exige malas feitas, pulmões fortes, pernas firmes para a caminhada que pode ser tão cheia de curvas. Exige tempo de uma ampulheta que, de tão egoísta, nem sempre te mostra as curvas certas nas ocasiões que ela decide ensinar o verdadeiro propósito em partir. “Ah, como esta vida é urgente!”, Mário Quintana declamou no meio de tantos versos que repetia a verdade mais injusta: “É preciso partir”.

Partir para o sossego, partir por um tempo, partir para mudar, partir para crescer, partir desta para melhor, partir rindo, partir chorando, partir sem se despedir, partir sem saber a força de um “adeus” ou de sua ausência, partir. Partir quantas vezes necessário. Partir, partir. Sem mais delongas. Parta e parta de uma vez. Parta levando o que puder, mas deixando o sorriso e o brilho que só ele pode fornecer. Parta rápido e, se for me permitido clichês, parta sem olhar para trás.

É preciso, afinal, partir. Parta correndo, dentro um ônibus, arrastando-se ao chão que te impede de ficar. Parta em um bicicleta de pneus vazios, parta com um carroça ou sem nenhuma. Parta esperando a chuva, o arco-íris, o cometa que diziam que só passará por aqui daqui a mil anos. Parta até que a Lua traga ao céu suas estrelas que um dia pensaram serem furos de um cobertor. Parta esperando o Sol que lhe prometeram que, partindo ou não, apareceria a você trazendo a esperança de um novo dia em que você finalmente terá coragem de partir.

É preciso despedaçar-se. Espalhar pequenos pedaços em lugares outrora imperfeitos. Mas, parta. Para hoje, duas vezes se precisar. Parta e volte se preferir. Mas não desista de partir. E parta direito. Dê partida no motor e parta como uma bala. Veja o rio partindo diante do horizonte. Arremesse a flecha que parte e observe-a ir só para ver que, decidida, ela chega ao alvo sem olhar para trás. Partilhe-se. Parta seu coração como tantos já fizeram e descubra que ainda assim é preciso parti-lo mais vezes. Dói, eu sei. Mas a dor parte logo. Não deixe o trem partir sem você e, a partir do momento em que você decidir ir observando seus pensamentos partirem dos vagões, despedace-se. Deixe um pedaço seu ali e outro acolá. Ainda usam essa palavra? Espero que sim.

Partir. Repartir. Dividir. Fugir. Deixar. Seguir. Avançar. Ir. Ir? Verbo intransitivo: progredir.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

No futuro será mais fácil sonhar

Tenho uma coisa a te dizer, querida. A porta de madeira abre e você larga a mão da maçaneta, terminando o nó do próprio roupão de seda. Meus fios de cabelo não fazem esforço para impedir as gotas de chuva que insistem em cair. Minhas roupas estão molhadas e você está aí, meu bem, tão perto.

Eu começo a te dizer todas as coisas que percebi enquanto pegava essa chuva. Ah, meu bem, tudo é tão simples agora, por que eu complicaria? Não há pessoas gritando, correndo, se empurrando ou chorando na rua, não há carro acelerando no sinal amarelo. Não precisamos tentar entender os motivos que levam dois aviões a se chocarem contra os prédios porque isso já não acontece mais. Os idosos andam com seus cães na rua pela manhã e há adultos que ignoram a pressa para acompanhá-los segurando suas mãos enquanto caminham pela faixa de pedestre com eles, sem esperar nada em troca.

Ah, querida, você deveria ver como é belo um governo que tanto cumpre o que diz. O exército adotou um novo tipo de arma: o respeito. Ninguém mais pensa em dinheiro ou em bombas; quando as pessoas se desentendem, querida, nós os levamos para uma sala colorida e pedimos perdão uns aos outros porque nos tornamos tão racionais que percebemos que respeitar e dividir o que falta dá certo pra todo mundo. Às vezes a gente relembra aquela canção do John Lennon, “Imagine”, e quando ele citou “Nothing to kill or die for” e nos perguntamos por que é que a música foi nomeada “Imagine” ao invés de “Let’s do it”. Louco, né?

Os policiais estão na rua o tempo todo. Espere! Não se assuste. Eles não estão prendendo ninguém. Eles passam a maior parte do tempo plantando flores. As rosas brancas são tão bonitas, você devia ver… De vez em quando passa uma moça bonita com uma saia colorida e eles cortam uma rosa rapidinho, para entregá-la. Você devia ver a agilidade de corte deles quando a moça tem um sorriso bonito. Ah, meu bem, tudo é tão belo. Não há mais quem proteja alguém que esteja errado por causa de dinheiro. Antigamente cumprir a lei era heroísmo; hoje, todos os advogados estão usando uma estrela no peito pra dizer que, na verdade, eles podem instruir todo mundo a ser herói, e não ensinar a achar um desvio – não o de dinheiro, se é o que você pensou – e sim algum desvio da lei; ninguém mais pensa assim. Há muitas pessoas querendo estudar Direito para usar a estrelinha mais bonita e dizer “Planto o heroísmo”, mesmo sabendo que todo mundo pode fazer isso.

As pessoas adotaram uma rotina engraçada: de manhã todo mundo, inclusive as crianças, pode comer o que quiser. Elas variam de cereais até x-burger (imagine só!). E de noite, alguém faz chá de limão com mel e conta uma historinha para dormir. Só assim, ninguém dorme porque sente fome; todas as pessoas, principalmente as crianças, dormem porque estão suficientemente felizes. No outro dia, todas elas podem sair e brincar até a hora que quiserem no quintal, na casa ao lado, no bairro vizinho, onde acharem melhor. De vez em quando uma mãe ou outra as chamam um pouquinho mais cedo do que o de costume, mas isso não faz mal a ninguém, né?

Você ia adorar, querida. As pessoas deixaram de lado aquele tal de SnapChat, WhatsApp e um tal de Facebook e aderiram ao uso das cartas. É empolgante ver o brilho nos olhos das moças que recebem cartas dos rapazes que vão dormir todo dia pensando. As pessoas pensam, sabe? As pessoas leem. Todas elas. Todas elas sabem como ler desde cedo. Todas elas calculam uma rota para encontrar as mais perfeitas palavras para escrever às pessoas queridas. É muito comum encontrar rapazes que entregam Piscos de Pivil (sabe, a tecnologia superior dos Discos de Vinil) às moças com um bilhete escrito “Pensei em você escutando a faixa 13”. De vez em quando monto alguns Piscos a você, mas fico em dúvida na hora de te enviar porque não sei qual escolher.

Todos adoram receber e enviar coisas, seja para quem for: negros, brancos, pardos, com o olho um pouquinho mais puxado, com uma calça com o número um pouquinho maior, com o número da blusa um pouquinho menor, com o cabelo colorido ou castanho, conseguindo ou não ouvir, sabendo ou não andar. Todo mundo recebe cartas de todo mundo. Ninguém mais tem essa coisa de preconceito. A professora de história às vezes falava dessa coisa antiquada, por isso perdoe-me se eu não souber mais qual é o significado.

Ah, amor, de vez em quando alguém pega um resfriado, tropeça e corta o joelho, bate com o braço na porta assim que passa por ela que fica até roxo, mas aí é só andar uns cinco minutinhos e ir até o médico mais próximo, porque ele estará lá, todo de branco, com um sorriso no rosto, faz uma piadinha ou outra e pergunta “O que aconteceu?” e te dá um remédio, uma picadinha de injeção que dói às vezes, mas logo passa. Tudo passa agora, seja dor de cabeça ou febre. Nenhuma dor dura muito tempo porque todo dia alguém encontra um motivo para ser feliz.

Então eu olho para você, com essa expressão preocupada, na minha frente com esse roupão que tantas vezes eu vi você pendurar depois de dizer “Hoje eu caí no metrô”, sinto mais uma vez a água gelada escorrer nos meus cabelos e te pergunto com dor, com medo e engolindo essa vontade de chorar que destrói o meu peito, sentindo essa vontade que dá sempre de gritar e se questionar sem parar, por que é, meu bem, por que é que é tão difícil assim sonhar?

(Naély Pereira Covre – minha autoria)

 

Amar: nossa bendita (ou maldita) sorte

Relacionar-se com outros indivíduos nos possibilitou uma sorte não concebida às outras espécies. Sermos capazes de rir, conversar e compartilhar informações (“Quem é essa sua amiga do Face?”) faz de nós seres apaixonantes. Muitas vezes, porém, o amor e essa sorte nos leva ao ciúme, por vezes doentio (“Falando sério: quem é essa?”). Os personagens são muitos: Rita, Camilo e Vilela, por exemplo, e o enigma de Capitu: “traidora ou não?”, comprovam a ideia de que nossa sorte também é, infelizmente, nosso caos.

Apenas nas últimas décadas a ideia de relacionamentos baseados na submissão vem sido repudiada. Até então, a mulher era vista como propriedade exclusiva do esposo. Era ainda pior na Idade Antiga, quando as mulheres não eram consideradas cidadãs e, portanto, excluídas do privilégio de pensar e debater na democracia ateniense. Até então, manter o relacionamento como uma prisão não foi e não é saudável em geração alguma, embora ainda haja casais assim. Diversificá-lo com amantes deixou de ser aceitável na grande parte da população, posto que era normal um Senhor ou um Rei com mais de uma esposa; a ideia, hoje, é assustadora.

Com a literatura realista, Machado de Assis transformou os ideais de amor puro e inabalável do romantismo por algo mais triste e inesperado: a traição. Esta vilã dos relacionamentos não era exclusividade de nenhuma classe social, como comprova Isaura e seus três amantes. O problema do realismo, porém, foi nos deixar a verdade única e inabalável: o amor não é tão puro, a confiança nem sempre é válida e o ciúme faz sentido se você o sentir. “Há exceções”, responde o Romantismo.

Não há como desviar de uma regra aceita há tanto tempo: há sim o amor e a dor, a verdade e a mentira, os bons e maus relacionamentos. Devemos, contudo, contar com a nossa sorte, a fim de utilizarmos nossa capacidade de nos relacionar de maneira sadia, baseada no respeito mútuo, na conversa sincera. De maneira equilibrada, sentir ciúme faz bem. Afinal, ninguém quer ser um Bentinho, viver na desconfiança e deixar de se preocupar com o que realmente importa: amar.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)