Mãos dadas – Carlos Drummond de Andrade

drummond-de-andrade-3

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

(Carlos Drummond de Andrade. Fonte)

Advertisements

O apagar da velha chama – Luis Fernando Veríssimo

285x160x4dpv4hwfjrhhhlxy2ip0ur9xwp41n1npncahr3be4jbyqgobafa84ztmtgevjuvihynm1cbniyliy96l-pagespeed-ic-5sr5qqdmx

Eu, você, nós dois, um cantinho, um violão… Da janela, mesmo em Porto Alegre, via-se o Corcovado, o Redentor (que lindo!) e um barquinho a deslizar no macio azul do mar. Tinha-se, geralmente, de vinte anos para menos quando, em 1958, chegou a Elizete com abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim e João Gilberto com o amor, o sorriso, a flor e aquela batida diferente, mesmo que você não pudesse acompanhar e ficasse numa nota só, porque no peito dos desafinados também batia um coração, lembra?

Na vida, uma nova canção, um doce balanço. Era carioca, era carioca, certo, mas a juventude que aquela brisa trazia também trazia pra cá e daqui se via a mesma luz, o mesmo céu, o mesmo mar, milhões de festas ao luar, e sempre se podia pegar um Electra e mandar descer no Beco das Garrafas, olha que coisa mais linda. Queríamos a vida sempre assim, si, dó, ré, mi, fá, sol, muito sol, e lá. Mas era preciso ficar e trabalhar, envelhecer, acabar com esse negócio de Rio, céu tão azul, ilhas do sul, muita calma pra pensar e ter tempo pra sonhar, onde já se viu? Até um dia, até talvez, até quem sabe. O amor, o sorriso e a flor se transformavam depressa demais.

Quem no coração abrigou a tristeza de ver tudo isso se perder, para não falar nos seus vinte anos, nos seus desenganos e no seu violão, nem pode dizer ó brisa fresca, porque nem mais se entende, nem mais pretende ficar fingindo e seguir seguindo. A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza, é só a melancolia que não sai de mim, não sei de mim, não sai.

E dê-lhe rock.

(Luis Fernando Veríssimo. Adaptado. Fonte)

Natureza viva – Caio Fernando Abreu

1473419152354

À memória de Orlando Bernardes

Como você sabe, dirás feito um cego tateando, e dizer assim, supondo um conhecimento prévio, faria quem sabe o coração do outro adoçar um pouco até prosseguires, mas sem planejar, embora planejes há tanto tempo, farás coisas como acender o abajur do canto depois de apagar a luz mais forte no alto, criando um clima assim mais íntimo, mais acolhedor, que não haja tensão alguma no ar, mesmo que previamente saibas do inevitável das palmas molhadas das tuas mãos, do excesso de cigarros e qualquer coisa como um leve tremor que, esperas, não transparecerá em tua voz. Mas dirás assim, por exemplo, como você sabe, a gente, as pessoas, infelizmente, têm, temos, essa coisa, as emoções, mas te deténs, infelizmente? o outro talvez perguntaria por que infelizmente? então dirás rápido, para não te desviares demasiado do que estabeleceste, qualquer coisa como seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente, insistirás, infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos – emoções. Meditarias: as pessoas falam coisas, e por trás do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem há o que são e nem sempre se mostra. Há os níveis não formulados, camadas imperceptíveis, fantasias que nem sempre controlamos, expectativas que quase nunca se cumprem e sobretudo, como dizias, emoções. Que nem se mostram. Por tudo isso, infelizmente, repetirás, insistirás completamente desesperado, e teu único apoio será a mão estendida que, passo a passo, raciocinas com penosa lucidez, através de cada palavra estarás quem sabe afastado para sempre. Mas já não sou capaz de me calar, talvez dirás, então, descontrolado e um pouco mais dramático, porque meu silêncio já não é uma omissão, mas uma mentira. O outro te olhará com olhos vazios, não entendendo que teu ritmo acompanharia o desenrolar de uma paisagem interna absolutamente não verbalizável, desenhada traço a traço em cada minuto dos vários dias e tantas noites de todos aqueles meses anteriores, recuando até a data maldita ou bendita, ainda não ousaste definir, em que pela primeira vez o círculo magnético da existência de um, por acaso banal ou pura magia, interceptou o círculo do outro.

No silêncio que se faria, pensas, precisarás fazer alguma coisa como colocar um disco ou ensaiar um gesto, mas talvez não faças nada, pois ele continuará te olhando com seus olhos vazios no fundo dos quais procuras, mergulhador submarino, o indício mínimo de algum tesouro escondido para que possas voltar à tona com um sorriso nos lábios e as mãos repletas de pedras preciosas. Mas nesse silêncio que certamente se fará talvez acendas mais um cigarro, e com a seca boca cerrada sem nenhum sorriso, evitarias o mergulho para não correres o risco de encontrar uma fera adormecida. Teu coração baterá com força, sem que ninguém escute, e por um momento talvez imagines que poderias soltar os membros e simplesmente tocá-lo, como se assim conseguisses produzir uma espécie qualquer de encantamento que de repente iluminaria esta sala com aquela luz que tentas em vão descobrir tambémnele, enquanto dentro de ti ela se faz quase tangível de tão clara. Nítida luz que ele não vê, esse outro sentado a teu lado na sala levemente escurecida, onde os sons externos mal penetram, como se estivessem os dois presos numa bolha de ar, de tempo, de espaço, e novamente encherás o cálice com um pouco mais de vinho para que o líquido descendo por tua garganta trêmula vá ao encontro dessa claridade que tentas, precário, transformar em palavras luminosas para oferecer a ele. Que nada diz, e nada dirás, e sem saber por que imaginas um extenso corredor escuro onde tateias feito cego, as mãos estendidas para o vazio, pressentindo o nada que tu mesmo prepararias agora, suicida meticuloso, através de silêncios maltecidos e palavras inábeis, pobre coisa sedente, te feres, exigindo o poço alheio para saciar tua sede invisível.

Anjos e demônios esvoaçariam coloridos pela sala, mas o caçador de borboletas permanece parado, olhando para a frente, um cigarro aceso na mão direita, um cálice de vinho na mão esquerda. A presença do outro latejaria a teu lado quase sangrando, como se o tivesse apunhalado com tua emoção não dita. Tuas mãos apoiadas em bengalas mentirosas não conseguiriam desvencilhar o gesto para romper essa espessa e invisível camada que te separa dele. Por um momento desejarás então acender a luz, dar uma gargalhada ridícula, acabar de vez em quando com tudo isso, fácil fingir que tudo estaria bem, que nunca houve emoções, que não desejas tocá-lo, que o aceitas assim latejando amigo belo remoto, completamente independente de tua vontade e de todos esses teus informulados sentimentos. No momento seguinte, tão imediato que nascerá, gêmeo tardio, quase ao mesmo tempo que o anterior, desejarás depositar o cálice, apagar o cigarro e estender duas mãos limpas em direção a esse rosto que sequer te olha, absorvido na contemplação de sua paisagem interna. Mas indiferente à distância dele, quase violento, de repente queres violar com tua boca ardida de álcool e fumo essa outra boca a teu lado. Desejarás desvendar palmo a palmo esse corpo que há tanto tempo supões, com essa linguagem mesmo de história erótica para moças, até que tua língua tenha rompido todas as barreiras do medo e do nojo, subliterário e impudico continuas, até que tua boca voraz tenha bebido todos os líquidos, tuas narinas sugados todos os cheiros e, alquímico, os tenhas transmutado num só, o teu e o dele, juntos – luz apagada, clichê cinematográfico, peças brancas de roupas cintilando jogadas ao chão.

E desejá-lo assim, com todos os lugares-comuns do desejo, a esse outro tão íntimo que às vezes julgas desnecessário dizer alguma coisa, porque enganado supões que tu e ele vezenquando sejam um só, te encherá o corpo de uma força nova, como se uma poderosa energia brotasse de algum centro longínquo, há muito adormecido, todas as princesas de todos os contos de fada desfilam por tua cabeça, quem sabe dessa luz oculta, e é então que sentes claramente que ele não é tu e tu não serás ele, esse ser, o outro, que mágico ou demoníaco, deliberado ou casual te inflama assim de tolos ardores juvenis, alucinando tua alma, que o delírio é tanto que até supões ter uma. Queres pedir a ele que simplesmente sendo, te mantenha nesse atormentado estado brilhante para que possas iluminá-lo também com teu toque, tua língua terna, a rija vara de condão de teu desejo. Mas ele nada sabe, nem saberá se permaneceres assim, temeroso de que uma palavra ou gesto desastrados seriam capazes de rasgar em pedaços essa trama onde te enleias cada vez mais sem remédio, emaranhado em ti e tuas ciladas, em tua viva emoção sintética a ponto de parecer real, emaranhado no desconhecido de dentro dele, o outro – que no lado oposto do sofá cruza as mãos sobre os joelhos, quase inocente, esperando atento e educado que de alguma forma termines o que começaste.

Muito mais que com amor ou qualquer outra forma tortuosa da paixão, será surpreso que o olharás agora, porque ele nada sabe de seu poder sobre ti, e nesse exato momento poderias escolher entre torná-lo ciente de que dependes dele para que te ilumines ou escureças assim, intensamente, ou quem sabe orgulhoso negar-lhe o conhecimento desse estranho poder, para que não te estraçalhe entre as unhas agora calmamente postas em sossego, cruzadas nas pontas dos dedos sobre os joelhos.

Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que nunca serão enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele.

Que não suspeitarás da tua perdição, mergulhado como agora, a teu lado, na contemplação dessa paisagem interna onde não sabes sequer que lugar ocupas, e nem mesmo se estás nela. Na frente do espelho, nessas manhãs maldormidas, acompanharás com a ponta dos dedos o nascimento de novos fios brancos nas tuas têmporas, o percurso áspero e cada vez mais fundo dos negros vales lavrados sob teus olhos profundamente desencantados. Sabes de tudo sobre esse possível amargo futuro, sabes também que já não poderias voltar atrás, que estás inteiramente subjugado e as tuas palavras, seja lá quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após teres dito tudo, te conduza ao céu ou ao inferno. Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Por trás de todos os artifícios, só não saberás que nesse exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur no canto da sala depois de apagar a luz mais forte no alto. E finalmente começas a falar.

(Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados)

 

Hino nacional – Carlos Drummond de Andrade

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…

Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

(Carlos Drummond de Andrade via MemóriaViva)

Ano que vem, dá certo?

Foto: imagens internet

Diante da televisão, vejo a notícia de manifestações espalhadas pelas capitais do País. Os olhos frustrados, os gritos, panelas e apitos ecoando pelas ruas. Segurando cartazes clamando por justiça, ordem e progresso, assisto à passeata dos milhares de habitantes cantando o Hino Nacional, tentando renascer o patriotismo outrora perdido nos versos “Pátria amada, Brasil!”. A impaciência domina as ruas brasileiras de norte a sul. Outro dia perguntei a um senhor, com seus oitenta e dois anos e seus cabelos brancos, ombros caídos e olhos azuis generosos, se ele se lembrava de uma crise como essa. “Perderam-se os líderes”, disse ele, balançando a cabeça, acrescentando mais histórias. Vendo a multidão exasperada em Copacabana gritando, a caminhada rumo ao Congresso em Brasília, a criança faminta que não vai à escola porque não há como chegar, o jovem que não entra na faculdade porque não há como pagar, os tributos subindo junto com a inflação, o imigrante que cogita voltar, a criança que se acostuma saber que nada irá mudar, o idoso que assiste novamente um capítulo similar; pergunto-me: as passeatas caminham, as redes comentam, os gritos ecoam; o Brasil segue… Com quem?

Quando cresci a ponto de começar a entender política, lembro-me de ter visto na televisão dois senhores em cima do palco sorrindo com música e festa. Não vi outro jeito de governar desde então, mas, hoje, ao entender de política e de politicagem, ao ver os anos se passarem e ainda se falar da mesma coisa (em 2013, as sombras invadindo o Congresso; em 2014, a comparação em que tudo era melhor do que construir estádios; em 2015, os panelaços…), permito-me lembrar de um texto escrito por Paulo Mendes Campos, “Brasileiro, homem do amanhã”. Escritor esplêndido da década de 50, disse “Aquilo que alguns autores ingleses diziam por humorismo (nunca se fazer amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã), não é no Brasil uma deliberada norma de conduta, uma diretriz fundamental. Não, é mais, é bem mais forte do que qualquer princípio da vontade: é um instinto inelutável, uma força espontânea da estranha e surpreendente raça brasileira”.

Os anos se passam e a espera se alonga: faremos depois do carnaval, no fim de semana, nas férias. Votaremos certo daqui 3 anos, finalmente votaremos certo aqui 1 ano, enfim, daqui uma semana, e enfim o outubro de 2013 surpreendeu e a história de 14 anos se repete. O brasileiro vai às ruas com cartazes, gritos; a garganta estoura, as lágrimas escorrem, o hino ecoa pela rua, abafado pelas panelas barulhentas; o brasileiro chora, frustrado, no chão, fora da faculdade, na fila dos hospitais, de estômago vazio; importa gasolina, espera a chuva, espera o governo, e continua esperando no apagão. Espera, ano que vem dá certo. Ano que vem a gente vota, ano que vem tudo muda. Mês que vem a gente vai pra rua, a gente entra no Facebook e compartilha os pensamentos irônicos de Impecheament de um povo que aplaude a ideia sem conhecer a própria Constituição. Amanhã vai, semana que vem vai. Do mês que vem não passa. Passa dois, três, cinquenta anos e “o brasileiro adia; logo existe”, como Paulo escreveu.

O Brasil segue sozinho. Sem líderes no Congresso, sem paz nas ruas, sem paz nenhuma, sem ordem, nem progresso, sem nenhuma ideia senão a conformação “É assim mesmo, fazer o quê…”. Sem esperança, sem líderes, já escutamos: “O mais triste é que manifestar não dá em nada”. E assim, adiamos novamente. Adiamos uma manifestação que dê certo, adiamos nosso silêncio, adiamos o progresso, adiamos o Brasil.

(Naély Pereira Covre – minha autoria)

Carta a um amigo – Paulo Mendes Campos

Na foto: Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Mário Quintana e Paulo Mendes Campos na casa de Rubem Braga

Meu caro Otto: sei que você está de malas prontas, depois de dois anos e meio na Europa, para retornar ao Brasil, e assim eu não poderia deixar de adverti-lo nesta carta. As coisas aqui em nosso país mudaram muito e de repente; o fito desta é poupar-lhe um choque que até poderia desandar em uma espécie de neurose da situação.

Eu não sei bem o que houve mas o fato é que deu um negócio coletivo que torna as pessoas sempre insatisfeitas com aquilo que faziam habitualmente. Deu uma louca impressionante. Antes de mais nada, nem lhe passe pela cabeça perguntar a um marido pela mulher ou a uma mulher pelo marido. Houve uma troca geral. Sobre isso ficamos conversados, mas se prepare também para outras diversas surpresas, de que lhe dou apenas alguns exemplos. Os velhos tomam novocaína furiosamente, enquanto os moços tomam Coca-Cola e cocaína. Velhotas irremissíveis trafegam de lambreta pelas avenidas da zona sul, enquanto os mais lindos brotinhos andam de óculos e estudam na faculdade de filosofia. Ministros aprendem a tocar violão e escrevem em colunas sociais, diretores de graves órgãos de imprensa praticam ganzá ou reco-reco, ao passo que os colunistas sociais tratam de problemas de saúde pública. Não há vedete do Teatro Recreio que não dê, pelo menos uma vez por mês, uma entrevista sobre música clássica e literatura inglesa. A música popular está a cargo dos melhores poetas do Brasil. Os milionários não soltam mais um vintém, mas em compensação os prontos fazem grandes farras. Investigadores de polícia, ganhando dez mil mensais, gastam cento e cinquenta mil, mas não há de ser nada, pois, por outro lado, sujeitos que estão se enchendo de dinheiro não pagam mais nem fogo na roupa. Grã-finos, que eram capazes até de andar malvestidos só para saírem nos jornais, hoje pedem pelo amor de Deus que os deixem em paz. Há muitos intelectuais que tocam bateria e há bateristas que não dormem ser ler um pouco de Heidegger ou Burckhardt. O Exército, de que tanto se falava mal, hoje guarda a dignidade brasileira, não deixando que os entreguistas metam a mão no petróleo. Os violonistas agora cantam, os cantores fazem corretagens, o Escurinho faz o gol, o Quarentinha está jogando o fino, o Botafogo contratou para armar o time um crioulo que tocava gongo muito bem. Em matéria de moda, não há nada mais impossível. Regra geral, as mulheres estão cada vez mais masculinizadas, enquanto as camisarias para homens exibem nas vitrinas aquelas roupas coloridíssimas que a Esther Williams usava nos filmes antigos da Metro. Deputados famosos por sua violência panfletária hoje escrevem sobre rosas. Os aviões nem sempre voam, os lotações voam sempre, outro dia apareceu uma vaca na minha rua.

Antônio Maria hoje é um magro e Vinicius de Moraes, nosso bom Vinicius, um gordo. Esporte de moda é boxe, apreciado sobretudo pelas damas. Os mais espalhafatosos doutrinadores das práticas democráticas são conhecidos nazistas do Estado Novo. Os humoristas ficaram sérios de súbito, enquanto homens probos dormiram gravemente e acordaram palhaços. Gente rica não tem mais filhos, por causa da inflação, mas as favelas estão cheias de crianças. A polícia instalou por conta própria a pena de morte, fuzilando sem mais aquela ladrões e malandros.

Está mesmo tudo virado de pernas pro ar e é de todo conveniente que você vá se acostumando. Os velhos acabaram com essa coisa de morrer, mas o enfarte come solto entre a gente moça. Há juízes que vivem no Jóquei e há cavalos que vivem no Palácio da Justiça. Quando alguém quer mostrar que uma coisa é boa ou bonita, diz que essa coisa é bárbara. Galenteio hoje se chama curra. O vinho nacional é bom, você poderia tomar algumas marcas sem perigo de dor de cabeça. Em matéria de televisão não lhe digo nada, você verá com os próprios olhos: piorou ainda mais. Há cães que têm medo de gatos e gatos com medo de ratos e ratos (isso há demais e pertencem ao nosso set social) sem medo de ninguém.

O parto agora (dizem elas) é uma delícia. Macaco velho já mete a mão em cumbuca. Mania também nova é estudar dicção: há pessoas que dizem as maiores besteiras do mundo com uma dicção linda. Mulher matando marido diminuiu bastante, ainda bem. Candidatos à presidência da República há dois: um de São Paulo, que nasceu em Mato Grosso, e um aqui do Rio, que nasceu em Minas Gerais. Outro dia, um médico, amigo meu, foi nomeado na prefeitura para uma vaga de “bailarino letra i”. Em Niterói me disseram que há ópio. O cardeal não quer que o Brasil reate relações comerciais com países socialistas. Vício novo é homem público aparecer na televisão para ser xingado de todas as maneiras. Gostam. Você conhece o pintor Raimundo Nogueira, não é? Pois outro dia ele foi visto recusando um bife com fritas, alegando que tinha acabado de almoçar; confesso que foi só um instantinho, imediatamente pensou melhor e comeu o bife.

Fico por aqui, de braços abertos, à sua espera. Agora, tem uma coisa: se você por acaso chegar num dia de sábado, vai me desculpar, meu velho, mas não posso ir ao cais, porque estarei jogando futebol. Ponta de lança.

Manchete, 15/08/1959

(Paulo Mendes Campos. Companhia das Letras, 2013)

Panelas, caos e jeitinhos: a década onde quem reina é a esperança

Na primeira semana de março, o ex-presidente Lula declarou, segundo a Revista Veja, que a atual presidente Dilma deveria pedir desculpas à população pelos erros cometidos. Nunca antes na história brasileira um presidente que tenha começado a governar parece caminhar a passos que deixem o país pior do que antes: a crise se expande, as desculpas começam; como agir com paciência? Na rua, as rodovias param, escutam-se insatisfações e panelaços. Diante do caos, o brasileiro utiliza sua voz e procura por soluções que, ao serem observadas cuidadosamente, não fazem sentido algum.

Ideias como a Ditadura vêm sido repudiadas pela maior parte dos protestantes, graças à censura e à violência praticadas há 50 anos que ainda deixam marcas negativas na história. Trazer projetos que já não deram certo não é atrativo, diferentemente do Impecheament de Dilma, que parece ser a melhor ideia pela maioria. Ao observar as leis brasileiras, porém, o ato é inadmissível, visto que não há provas que a atual presidente tenha cometido um crime e, portanto, que obrigue sua retirada do cargo.

Ao mesmo tempo, críticos dizem que tais ideias são tão absurdas quanto a intervenção militar: uma maioria insatisfeita com o governo contra uma pequena parte da população que consegue ser paciente. Pensar em intervir, neste caso, é ignorar os ideais de democracia para que se assumam desejos de uma parte insatisfeita com a última eleição. Como se não bastasse ter a democracia ferida, analistas já preveem o risco de uma guerra civil. O caos seria tão grande que retiraria o capital estrangeiro do país, prejudicando a economia ainda mais. Protestar, nesta década, torna-se uma “reação em cadeia” com consequências mais graves do que ficar em silêncio e torcer para que o governo corrupto de jeitinhos finalmente siga suas próprias leis e encontre solução.

A crise não é só governamental, tampouco eleitoral, mas histórica. É necessário uma intervenção educacional desde cedo para que, futuramente, o Brasil “não seja um país de iguais perante a lei”, segundo Salvador Andelle, mas de “leis iguais perante a todos.” Assim, a democracia reinará no lugar de pedidos de desculpas, de crises aparentemente insolúveis e de jeitinhos que insistem em sustentar a camada corrupta brasileira, utilizando o maior poder da população: o voto consciente. Do contrário, os próximos anos seguirão através de uma espera inacabável em sonhar com uma república justa e pacífica que não tenha noites de panelaços e que, principalmente, faça da pátria um motivo de orgulho nacional.

(Naély Pereira Covre – minha autoria)