Os olhos

“Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que ‘desse certo’, caso contrário deixaria de escrever. Pode ser.”
(Caio Fernando Abreu. Carta a José Márcio Penido. Porto Alegre, 1979)

A primeira coisa que viu foram os olhos.

Não saberia dizer se eram verdes ou castanhos. Ficava olhando de longe, tentando decifrar a incógnita que se escondia por trás de cílios que faziam sombra aos pássaros, perdendo a contagem dos fios que se perdiam entre si. Mais tarde descobriria que a cor certa era o cinza, aquele tipo de cinza que acompanha as árvores da João Telles em dia de chuva. Pensava que nunca tinha visto aquela cor até vê-la pela primeira vez. Depois que viu soube que não haveria mais volta, sem saber que é essa a sina dos que veem olhos como aqueles que, por um maldito ou bendito acaso – ainda não ousou definir -, naquele dia como qualquer outro, viu. Poderia ter olhado pela primeira vez tudo, mas não os olhos, ah, não os olhos, típicos daqueles oblíquos e dissimulados que tanto afetavam os livros que lia e que agora lhe afetavam, prendendo a dúvida cruel: seriam verdes ou azuis? As mãos eram pequenas, sim, macias como pétalas, e deviam ser leves também, o tipo de leve que te agarra e flutua, e descobriria mais tarde que sim, sim, era assim mesmo. Sentiu o perfume que lhe esquentou o peito pensando que verde não podia ser azul, e pensou que nada estava errado por causa das pétalas que caíam caíam caíam e agora dominavam aquele vazio que ainda desconhecia dentro de si. Poderia olhar os fios escuros que caíam sobre a testa, pesados e grossos feito espuma que deixa o mar, e que às vezes se moviam em sintonia com os olhos que se curvavam diante daqueles lábios que tão abertamente calorosamente lindamente sorriam. Lábios doces, descobriria mais tarde também. Poderia enxergar qualquer coisa, mas viu primeiro o verde ou o azul ou o castanho e não teve mais volta depois de descobrir que eram cinza os perigosos e sedutores olhos que poderiam encantar qualquer um que tivesse a coragem de vê-los. Brilhavam naquele momento quando pensava no azul ou no verde mas será que não seria dourado e o problema estava exatamente em tentar ver os olhos em um mundo que ninguém vê quase nada. Porque os olhos estavam lá, isso sabia. E com eles estava lá aquele brilho rodopiando e tocando seus abismos, aqueles mesmos abismos que prendiam uma poesia dentro de si como um pássaro em tempestade calma, dona daquela chuva passageira que passa, passa, e às vezes não passa nunca. Mas os olhos estavam lá e bastou vê-los para que, sim, soubesse. E soube. Respondeu silenciosamente calorosamente com os seus, que não eram iguais àqueles olhos, porque sabia bem que poesia não se entrega, mas depois que se vê, meu bem, corre-se o risco de brilhar intensamente, você me entende?

E brilhou.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

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Terça-feira gorda – Caio Fernando Abreu

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Para Luiz Carlos Góes

De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa entre as sobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei, quase sorrindo também, a boca gosmenta de tanta cerveja morna, vodca com coca-cola, uísque nacional, gostos que eu nem identificava mais, passando de mão em mão dentro dos copos de plástico. Usava uma tanga vermelha e branca, Xangô, pensei, Iansã com purpurina na cara, Oxaguiã segurando a espada no braço levantado, Orgum Beira-Mar sambando bonito e bandido. Um movimento que descia feito onda dos quadris pelas coxas, até os pés, ondulado, então olhava para baixo e o movimento subia outra vez, onda ao contrário, voltando pela cintura até os ombros. Era então que sacudia a cabeça olhando para mim, cada vez mais perto.

Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. Fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não lembraríamos antes de falar, talvez nem depois. Só que não havia palavras. Havia o movimento, a dança, o suor, os corpos meu e dele se aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez mais perto.

Na minha frente, ficamos nos olhando. Eu também dançava agora, acompanhando o movimento dele. Assim: quadris, coxas, pés, onda que desce, olhar para baixo, voltando pela cintura até os ombros, onda que sobe, então sacudir os cabelos molhados, levantar a cabeça e encarar sorrindo. Ele encostou o peito suado no meu. Tínhamos pelos, os dois. Os pelos molhados se misturavam. Ele estendeu a mão aberta, passou no meu rosto, falou qualquer coisa. O quê, perguntei. Você é gostoso, ele disse. E não parecia bicha nem nada: apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o meu, que por acaso era de homem também. Eu estendi a mão aberta, passei no rosto dele, falei qualquer coisa. O quê, perguntou. Você é gostoso, eu disse. Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também.

Eu queria aquele corpo de homem sambando suado bonito ali na minha frente. Quero você, ele disse. Eu disse quero você também. Mas quero agora já neste instante imediato, ele disse e eu repeti quase ao mesmo tempo também, também quero. Sorriu mais largo, uns dentes claros. Passou a mão pela minha barriga. Passei a mão pela barriga dele. Apertou, apertamos. As nossas carnes duras tinham pelos na superfície e músculo sob as peles morenas do sol. Ai-ai, alguém falou em falsete, olha as loucas, e foi embora. Em volta, olhavam.

Entreaberta, a boca dele veio se aproximando da minha. Parecia um figo maduro quando a gente faz com a ponta da faca uma cruz na extremidade mais redonda e rasga devagar a polpa, revelando o interior rosado cheio de grãos. Você sabia, eu falei, que o figo não é uma fruta mas uma flor que abre para dentro. O quê, ele gritou. O figo, repeti, o figo é uma flor. Mas não tinha importância. Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope metálico. Tomou uma e me estendeu a outra. Não, eu disse, eu quero minha lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria aquela bolinha química quente vindo direto do meio dos pentelhos dele. Estendi a língua, engoli. Nos empurravam em volta, tentei protegê-lo com meu corpo, mais ai-ai repetiam empurrando, olha as loucas, vamos embora daqui, ele disse. E fomos saindo colados por meio do salão, a purpurina da cara dele cintilando no meio dos gritos.

Veados, a gente ainda ouviu, recebendo na cara o vento frio do mar. A música era só um tumtumtum de pés e tambores batendo. Eu olhei para cima e mostrei olha lá as Plêiades, só o que eu sabia ver, que nem raquete de tênis suspensa no céu. Você vai pegar um resfriado, ele falou com a mão no meu ombro. Foi então que percebi que não usávamos máscara. Lembrei que tinha lido em algum lugar que a dor é a única emoção que não usa máscara. Não sentíamos dor, mas aquela emoção daquela hora ali sobre nós, e eu nem sei se era alegria, também não usava máscara. Então pensei devagar que era proibido ou perigoso não usar máscara, ainda mais no Carnaval.

A mão dele apertou meu ombro. Minha mão apertou a cintura dele. Sentado na areia, ele tirou da sunga mágica um pequeno envelope, um espelho redondo, uma gilete. Bateu quatro carreiras, cheirou duas, me estendeu a nota enroladinha de cem. Cheirei fundo, uma em cada narina. Lambeu o vidro, molhei as gengivas. Joga o espelho pra Iemanjá, me disse. O espelho brilhou rodando no ar, e enquanto acompanhava o voo fiquei com medo de olhar outra vez para ele. Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo pode ficar feio. Ou vice-versa. Olha pra mim, ele pediu. E eu olhei.

Brilhávamos, os dois, nos olhando sobre a areia. Te conheço de algum lugar, cara, ele disse, mas acho que é da minha cabeça mesmo. Não tem importância, eu falei. Ele falou não fale, depois me abraçou forte. Bem de perto, olhei a cara dele, que olhada assim não era bonita nem feia: de poros e pelos, uma cara de verdade olhando bem de perto a cara da verdade que era a minha. A língua dele lambeu meu pescoço, minha língua entrou na orelha dele, depois se misturaram molhadas. Feito dois figos maduros apertados um contra o outro, as sementes vermelhas chocando-se com um ruído de dente contra dente.

Tiramos as roupas um do outro, depois rolamos na areia. Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone teu signo ou endereço, ele disse. O mamilo dele na minha boca, a cabeça dura do meu pau dentro da mão dele. O que você mentir eu acredito, eu disse, que nem marcha antiga de Carnaval. A gente foi rolando até onde as ondas quebravam para que a água lavasse e levasse o suor e a areia e a purpurina dos nossos corpos. A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico. A gente se afastou um pouco, só para ver melhor como eram bonitos nossos corpos nus de homens estendidos um ao lado do outro, iluminados pela fosforescência das ondas do mar. Plâncton, eu disse, é um bicho que brilha quando faz amor.

E brilhamos.

Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que eu me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito abertos e sem nenhuma culpa entre as outras cara dos homens. A boca molhada no meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegê-lo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros todos em volta, muito próximos.

Fechando os olhos então, como um filme contra as pálpebras, eu conseguia ver três imagens se sobrepondo. Primeiro o corpo suado dele, sambando, vindo em minha direção. Depois as Plêiades, feito uma raquete de tênis suspensa no céu lá em cima. E finalmente a queda lenta de um figo muito maduro, até esborrachar-se contra o chão em mil pedaços sangrentos.

(Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados. Nova Fronteira, 2015)

Para D.S.R.G.

 

Mulher

Mulher, mulher
Com suas graciosas volúpias
Disfarça a beleza que lhe é própria
Nos quadris e no côncavo do olhar
Quem me dera por um acaso
Mulher me tornar

Carrega na pele a maciez dos céus
No olhar de serpente a alegria de criança
Nas mãos finas sua força incontestável
E no peito o calor das estrelas
Quem me dera compreendê-las!

Neste universo próprio de uma mulher
Uma só consegue ser todas
São Capitus, Iracemas e Aurélias
Todas são uma
E uma são todas

São mães, amigas, amantes
Páginas de lembranças de ti
E a ti cabe lembrar de seus amores
Que maiores não encontraste por aí

Não sejas ingênuo, querido
Compreender seus mundos é tarefa dos dignos
Mostraste miserável soberania
Afastaste de ti a beleza dos campos
O perfume da vida
A brisa do céu
E o calor divino de mãos macias
Que, de tão puras,
Em vão sequer conhecerias

Quando o mundo dos primitivos perceber, enfim
Quando as barreiras impostas derem por fim
Quando viver e ser for seguro
Então
Sim!
Restará vivenciar a poesia
Que encontrarei dentro de mim

Livres, por fim
Farão do horizonte campos poéticos
Darão às sombras das laranjeiras o calor do orvalho
E à Lua o brilho dos olhos

Não tenhas medo deste mundo
Que com tanta beleza se esconde
Por debaixo de palavras rudes
Que te ensinaram a gritar com tanta fé

Acorda, enfim, mundo querido
Conheças uma e defenderás todas
Todas são uma
E uma são todas
Cansadas, sonhando
E sendo a razão das mais belas poesias
Mulher,
Mulher.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

8 de Março. Dia Internacional da Mulher.

A gramática de ir embora

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É preciso partir.

Três palavras que, de tão pequenas, separadas não apresentam sentido algum. “É” é uma certeza, uma afirmação, uma conjugação de um verbo de estado tão poderoso quanto “existir”. Traz a verdade incontestável em suas extremidades: “é que te amo”, explica o confuso; “é hoje”, afirma o ansioso; “é…”, concorda outro sem mais nada a dizer. “É preciso”, no meu caso porque, sem outro verbo ou advérbio, encerro minha própria afirmação e digo, com a força que um cronista tem, que é.

“Preciso”, conjugação do presente de “precisar”, um verbo transitivo que, em sua definição mais simplificada, carrega no dicionário “a necessidade de”. De quê mesmo? De ser? De ter? Não. De partir.

Partir querendo ficar, partir querendo correr, partir querendo voltar, partir querendo fotografar a própria essência da partida em si, só para que ela não se perdesse quando a linha de chegada estivesse já para trás. Falando em verbo, partir está lá. “Fazer-se em pedaços”, está escrito em uma das tantas definições que 6 letras podem magicamente trazer.

Despedaçar-se para caminhar exige coragem. Exige malas feitas, pulmões fortes, pernas firmes para a caminhada que pode ser tão cheia de curvas. Exige tempo de uma ampulheta que, de tão egoísta, nem sempre te mostra as curvas certas nas ocasiões que ela decide ensinar o verdadeiro propósito em partir. “Ah, como esta vida é urgente!”, Mário Quintana declamou no meio de tantos versos que repetia a verdade mais injusta: “É preciso partir”.

Partir para o sossego, partir por um tempo, partir para mudar, partir para crescer, partir desta para melhor, partir rindo, partir chorando, partir sem se despedir, partir sem saber a força de um “adeus” ou de sua ausência, partir. Partir quantas vezes necessário. Partir, partir. Sem mais delongas. Parta e parta de uma vez. Parta levando o que puder, mas deixando o sorriso e o brilho que só ele pode fornecer. Parta rápido e, se for me permitido clichês, parta sem olhar para trás.

É preciso, afinal, partir. Parta correndo, dentro um ônibus, arrastando-se ao chão que te impede de ficar. Parta em um bicicleta de pneus vazios, parta com um carroça ou sem nenhuma. Parta esperando a chuva, o arco-íris, o cometa que diziam que só passará por aqui daqui a mil anos. Parta até que a Lua traga ao céu suas estrelas que um dia pensaram serem furos de um cobertor. Parta esperando o Sol que lhe prometeram que, partindo ou não, apareceria a você trazendo a esperança de um novo dia em que você finalmente terá coragem de partir.

É preciso despedaçar-se. Espalhar pequenos pedaços em lugares outrora imperfeitos. Mas, parta. Para hoje, duas vezes se precisar. Parta e volte se preferir. Mas não desista de partir. E parta direito. Dê partida no motor e parta como uma bala. Veja o rio partindo diante do horizonte. Arremesse a flecha que parte e observe-a ir só para ver que, decidida, ela chega ao alvo sem olhar para trás. Partilhe-se. Parta seu coração como tantos já fizeram e descubra que ainda assim é preciso parti-lo mais vezes. Dói, eu sei. Mas a dor parte logo. Não deixe o trem partir sem você e, a partir do momento em que você decidir ir observando seus pensamentos partirem dos vagões, despedace-se. Deixe um pedaço seu ali e outro acolá. Ainda usam essa palavra? Espero que sim.

Partir. Repartir. Dividir. Fugir. Deixar. Seguir. Avançar. Ir. Ir? Verbo intransitivo: progredir.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

Aqueles dois (História de aparente mediocridade e repressão) – Caio Fernando Abreu

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Em memória de Rofran Fernandes 

I announce adhesiveness, I say it shall be limitless, unloosn’d
I say you shall yet find the friend you were looking for.
(Walt Whitman: “So long!”)

1

  A verdade é que não havia mais ninguém em volta. Meses depois, não no começo, quando não havia ainda intimidade para isso, um deles diria que a repartição era como “um deserto de almas”. O outro concordou sorrindo, orgulhoso, sabendo-se excluído. E longamente então, entre cervejas, trocaram ácidos comentários sobre as mulheres mal-amadas e vorazes, os papos de futebol, amigo secreto, lista de presente, bookmaker, bicho, endereço de cartomante, clipes no relógio de ponto, vezenquando salgadinhos no fim do expediente, champanhe nacional em copo de plástico. Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra – talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum deles se perguntou.

Não chegaram a usar palavras como especialdiferente ou qualquer outra assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo nenhum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las. Não que fossem muito jovens, incultos demais ou mesmo um pouco burros. Raul tinha um ano mais que trinta; Saul, um a menos. Mas as diferenças entre eles não se limitavam a esse tempo, a essas letras. Raul vinha de um casamento fracassado, três anos e nenhum filho. Saul, de um noivado tão interminável que terminara um dia, e um curso frustrado de arquitetura. Talvez por isso, desenhava. Só rostos, com enormes olhos sem íris nem pupilas. Raul ouvia música e, às vezes, de porre, pegava o violão e cantava, principalmente velhos boleros em espanhol. E cinema, os dois gostavam.

Passaram no mesmo concurso para a mesma firma, mas não se encontraram durante os exames. Foram apresentados no primeiro dia de trabalho de cada um. Disseram prazer, Raul, prazer, Saul, depois como é mesmo o seu nome? sorrindo divertidos da coincidência. Mas discretos, porque eram novos na firma e a gente, afinal, nunca sabe onde está pisando. Tentaram afastar-se quase imediatamente, deliberando limitarem-se a um cotidiano oi, tudo bem ou no máximo, às sextas, um cordial bom-fim-de-semana-então. Mas desde o princípio alguma coisa – fados, astros, sinas quem saberá? – conspirava (ou a favor, por que não?) aqueles dois.

Suas mesas ficavam lado a lado. Nove horas diárias, com intervalo de uma para o almoço. E perdidos no meio daquilo que Raul (ou teria sido Saul?) meses depois chamaria de “um deserto de almas”, para não sentirem tanto frio, tanta sede, ou simplesmente por serem humanos, sem querer justificá-los – ou, ao contrário, justificando-os plena e profundamente, enfim: que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem? Pois foi o que aconteceu. Mas tão lentamente que eles mesmos mal perceberam.

2

  Eram dois moços sozinhos. Raul viera do Norte, Saul do Sul. Naquela cidade todos vinham do Norte, do Sul, do Centro, do Leste – e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros referenciais – uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade – de certa foram, também em nenhuma outra – a não ser a si próprios. Poderia dizer também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

  Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto, uma outra reprodução também de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas manchadas do assoalho. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo quase fotograficamente o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

  Eram dois moços bonitos, todos achavam. As mulheres da repartição, casadas, solteiras, ficaram nervosas quando eles surgiram, tão altos e altivos, comentou de olhos arregalados uma secretária. Ao contrário dos outros homens, alguns até mais jovens, nenhum deles tinha barriga ou aquela postura desalentada de quem carimba ou datilografa papéis oito horas por dia.

  Moreno de barba forte azulando o rosto, Raul era um pouco mais definido, com sua voz de baixo profundo, tão adequada aos boleros amargos que gostava de cantar. Tinham a mesma altura, o mesmo porte, mas Saul parecia um pouco menor e mais frágil, talvez pelos cabelos claros, cheios de caracóis juntos, diziam as moças. Um doce de olhar. Sem terem exatamente consciência disso, quando juntos os dois aprumavam ainda mais o porte e, por assim dizer, quase cintilavam, o bonito de dentro de um estimulando o bonito de fora do outro e vice-versa. Como se houvesse, entre aqueles dois, uma estranha e secreta harmonia.

3

  Cruzavam-se silenciosos, mas cordiais, junto à garrafa térmica do cafezinho, comentando o tempo ou a chatice do trabalho, depois voltavam às suas mesas. Muito de vez em quando um pedia fogo ou um cigarro ao outro, e quase sempre trocavam frases como tanta vontade de parar, mas nunca tentei, ou já tentei tanto, agora desisti. Durou tempo, aquilo. E teria durado muito mais, porque serem assim fechados, quase remotos, era um jeito que traziam de longe. Do Norte, do Sul, de dentro talvez.

  Até que um dia em que Saul chegou atrasado e respondendo a um vago que-que-houve contou que tinha ficado até tarde assistindo a um velho filme na televisão. Por educação, ou cumprindo um ritual, ou apenas para que o outro não se sentisse mal chegando quase às onze, apressado, barba por fazer, Raul deteve os dedos sobre o teclado da máquina e perguntou: que filme? Infâmia, Saul contou baixo, Audrey Hepburn, Shirley MacLayne, um filme muito antigo, ninguém conhece. Raul olhou-o devagar, e mais atento, como ninguém conhece? eu conheço e gosto muito, não é aquela história das duas professoras que. Abalado, convidou Saul para um café, e no que restava daquela manhã muito fria de junho, o prédio feio mais do que nunca parecendo uma prisão ou clínica psiquiátrica, falaram sem parar sobre o filme.

  Outros filmes viriam nos dias seguintes e, tão naturalmente como se alguma forma fosse inevitável, também vieram histórias pessoais, passados, alguns sonhos, pequenas esperanças e sobretudo queixas. Daquela firma, daquela vida, daquele nó, confessaram uma tarde cinza de sexta, apertado no fundo do peito. Durante aquele fim de semana obscuramente desejaram, pela primeira vez, um em sua quitinete, outro no quarto de pensão, que o sábado e o domingo caminhassem depressa para dobrar a curva da meia-noite e novamente desaguar na manhã de segunda-feira, quando outra vez se encontrariam para: um café. Assim foi, e contaram um que tinha bebido além da conta, outro que dormira quase o tempo todo. De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta um do outro que sequer sabiam claramente ter sentido.

  Atentas, as moças em volta providenciaram esticadas aos bares depois do expediente, gafieiras, discotecas, festinhas na casa de uma, na casa de outra. A princípio esquivos, acabaram cedendo, mas quase sempre enfiavam-se pelos cantos e sacadas para trocar suas histórias intermináveis. Uma noite, Raul pegou o violão e cantou “Tu me acostumbraste”. Nessa mesma festa, Saul bebeu demais e vomitou no banheiro. No caminho até os táxis separados, Raul falou pela primeira vez no casamento desfeito. Passo incerto, Saul contou do noivado antigo. E concordaram, bêbados, que estavam ambos cansados de todas as mulheres do mundo, suas tramas complicadas, suas exigências mesquinhas. Que gostavam de estar assim, agora, sós, donos de suas próprias vidas. Embora, isso não disseram, não soubessem o que fazer com elas.

  Dia seguinte, de ressaca, Saul não foi trabalhar nem telefonou. Inquieto, Raul vagou o dia inteiro pelos corredores subitamente desertos, gelados, cantando baixinho “Tu me acostumbraste”, entre inúmeros cafés e meio maço de cigarros a mais que o habitual.

4

  Os fins de semana foram se tornando tão longos que um dia, no meio de um papo qualquer, Raul deu a Saul o número de seu telefone, alguma coisa que você precisar, se ficar doente, a gente nunca sabe. Domingo depois do almoço, Saul ligou só para saber o que o outro estava fazendo, e visitou-o, e jantaram juntos a comidinha mineira que a empregada deixara pronta no sábado. Foi dessa vez que, ácidos e unidos, falaram no tal deserto, nas tais almas.

  Há quase seis meses se conheciam. Saul deu-se bem com Carlos Gardel, que ensaiou um canto tímido ao cair da noite. Mas quem cantou foi Raul: “Perfidia”, “La barca”, “Contigo em la distancia” e, a pedido de Saul, outra vez, duas vezes, “Tu me acostumbraste”. Saul gostava principalmente daquele pedacinho assim “sutil llegaste a mí como una tentación llenando de inquietud mi corazón”. Jogaram algumas partidas de buraco e, por volta das nove, Saul se foi.

  Na segunda-feira não trocaram uma palavra sobre o dia anterior. Mas falaram mais que nunca, e muitas vezes foram ao café. As moças em volta espiavam, às vezes cochichavam sem que eles percebessem. Nessa semana, pela primeira vez almoçaram juntos na pensão de Saul, que quis subir ao quarto para mostrar os desenhos, visitas proibidas à noite, mas faltavam cinco para as duas e o relógio de ponto era implacável. Pouco tempo depois ,com o pretexto de assistir Vagas estrelas da Ursa na televisão de Saul, Raul entrou escondido na pensão, uma garrafa de conhaque no bolso interno do paletó. Sentados no chão, costas apoiadas na cama estreita, quase não prestaram atenção no filme. Não paravam de falar. Cantarolando “Io che non vivo” Raul viu os desenhos, olhando longamente a reprodução de Van Gogh, depois perguntou como Saul conseguia viver naquele quartinho tão pequeno. Parecia sinceramente preocupado. Não é triste? perguntou. Você não se sente só? Saul sorriu forte: a gente acostuma.

  Aos domingos, agora, Saul sempre telefonava. E vinha. Almoçavam ou jantavam, bebiam, fumavam, jogavam cartas, falavam o tempo todo. Enquanto Raul cantava – vezenquando “El día que me quieras”, vezenquando “Noche de ronda” -, Saul fazia carinhos lentos na cabecinha de Carlos Gardel pousando no seu dedo indicador. Às vezes olhavam-se. E sempre sorriam. Uma noite, porque chovia, Saul acabou dormindo no sofá. Dia seguinte, chegaram juntos à repartição, cabelos molhados do chuveiro. Nesse dia as moças não falaram com eles. Os funcionários barrigudos e desalentos trocaram alguns olhares que os dois não saberiam compreender, se percebessem. Mas nada perceberam, nem os olhares nem duas ou três piadas enigmáticas. Quando faltavam dez para as seis saíram juntos, altos e altivos, para assistir ao último filme de Jane Fonda.

5

  Quando começava a primavera, Saul fez aniversário. Porque achava seu amigo muito solitário ou por outra razão assim, Raul deu a ele a gaiola com Carlos Gardel. No começo do verão, foi a vez de Raul fazer aniversário. E porque estava sem dinheiro, porque seu amigo não tinha nada nas paredes da quitinete, Saul deu a ele a reprodução de Van Gogh. Mas entre esses dois aniversários aconteceu alguma coisa.

  No Norte, quando começava dezembro, a mãe de Raul morreu e ele precisou passar uma semana fora. Desorientado, Saul vagava pelos corredores da firma esperando um telefonema que não vinha, tentando em vão concentrar-se nos despachos, processos, protocolos. À noite, em seu quarto, ligava a televisão gastando tempo em novelas vadias ou desenhando olhos cada vez mais enormes, enquanto acariciava Carlos Gardel. Bebeu bastante nessa semana. E teve um sonho: caminhava entre as pessoas da repartição, todas de preto, acusadoras. À exceção de Raul, todo de branco, abrindo os braços para ele. Abraçados fortemente, e tão próximos que um podia sentir o cheiro do outro. Acordou pensando estranho, ele é quem devia estar de luto.

  Raul voltou sem luto. Numa sexta-feira de tardezinha, telefonou para a repartição pedindo a Saul que fosse vê-lo. A voz de baixo profundo parecia ainda mais baixa e ainda mais profunda. Saul foi. Raul tinha deixado a barba crescer. Estranhamente, em vez de parecer mais velho ou mais sério, tinha um rosto quase de menino. Bebem muito nessa noite. Raul falou longamente da mãe – eu podia ter sido mais legal com ela, coitada, disse, e não cantou. Quando Saul estava indo embora, começou a chorar. Sem saber ao certo o que fazia, Saul estendeu a mão, e quando percebeu seus dedos tinham tocado a barba crescida de Raul. Sem tempo para compreenderem, abraçaram-se fortemente. E tão próximos ficaram que um podia sentir o cheiro do outro: o de Raul, flor murcha, gaveta fechada; o de Saul, colônia de barba, talco. Durou muito tempo. A mão de Saul tocava a barba de Raul,  que passava os dedos pelos caracóis miúdos do cabelo do outro. Não diziam nada. No silêncio era possível ouvir uma torneira pingando longe. Tanto tempo durou aquilo que, quando Saul levou a mão ao cinzeiro, o cigarro era apenas uma longa cinza que ele esmagou sem compreender.

  Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes – ninguém, mundo, sempre – e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e choro e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias de gatos e putas. Em casa, acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde.

6

  Depois chegou o Natal, o Ano-Novo que passaram juntos, recusando convites dos colegas da repartição. Raul deu a Saul uma reprodução do Nascimento de Vênus, de Boticelli, que ele colocou na parede exatamente onde estivera o quadro de Van Gogh. Saul deu a Raul um disco chamado Os grandes sucessos de Dalva de Oliveira. A faixa que mais ouviram foi “Nossas vidas”, prestando atenção naquele trechinho que dizia “até nossos beijos parecem beijos de quem nunca amou”.

  Foi na noite de 31, aberto o champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um podia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã Saul foi embora sem se despedir, para que Raul não percebesse suas fundas olheiras.

  Quando janeiro começou, quase na época de tirarem férias – e tinham planejado juntos quem sabe Parati, Ouro Preto, Porto Seguro -, ficaram surpresos naquela manhã em que o chefe da seção os chamou, perto do meio-dia. Fazia muito calor. Suarento, o chefe foi direto ao assunto: tenho recebido algumas cartas anônimas. Recusou-se a mostrá-las. Pálidos, os dois ouviram expressões como “relação anormal e ostensiva”, “desavergonhada aberração”, “comportamento doentio”, “psicologia deformada”, sempre assinadas por Um Atento Guardião da Moral. Saul baixou os olhos desmaiados, mas Raul levantou de um salto. Parecia muito alto quando, com uma das mãos apoiadas no ombro do amigo e a outra erguendo-se atrevida no ar, conseguiu ainda dizer a palavra nunca, antes que o chefe, depois de coisas como a-reputação-de-nossa-firma ou tenho-que-zelar-pela-moral-dos-meus-funcionários, declarasse frio: os senhores estão despedidos.

  Esvaziaram lentamente cada um a sua gaveta, a sala vazia na hora do almoço, sem se olharem nos olhos. O sol de verão escaldava o tampo de metal das mesas. Raul guardou no grande envelope pardo um par de enormes olhos sem íris nem pupilas, presente de Saul, que guardou no seu grande envelope pardo a letra de “Tu me acostumbraste”, escrita por Raul numa tarde qualquer de agosto com algumas manchas de café. Desceram juntos pelo elevador, em silêncio.

  Mas quando saíram pela porta daquele prédio grande e antigo, parecido com uma clínica psiquiátrica ou uma penitenciária, vistos de cima pelos colegas todos nas janelas, a camisa branca de um e a azul do outro, estavam ainda mais altos e mais altivos. Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-ai!, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

  Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

(Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados. Rio de Janeiro, Agir, 2005.) 

 

Para uma avenca partindo – Caio Fernando Abreu

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– Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não se sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei por que todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha realmente pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor, pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, de não sentir medo desse mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos conta, é por isso que estou tão rouca assim, não, não é dessa coisa da gargante que falo, é de uma outra, de dentro, entende? por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista a você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai ser mais possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor, não é? pois isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando numa porção de coisas que eu ia te dizer depois, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas, não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? não sei, não me interrompa agora que eu estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é, eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente em nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas essas coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que eu estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive esse preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………… sim, sei, eu vou escrever, não, eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você olha arruma as malas e as bolsas, fica tranquila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é unica e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca?  eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

(Caio Fernando Abreu em O ovo apunhalado. Rio de Janeiro, Agir, 2008)

E você achando que Teatro é fácil

Por trás das cortinas fechadas, do palco barulhento, das coxias escuras, das máscaras inventadas, das falas improvisadas, das pinceladas pesadas de rímel, da pressa nos camarins, dos papéis e das roupas penduradas na arara, existe vida. Existe uma arte tímida que anseia em crescer e dominar cada canto desse país tão grande. Essa arte que vibra, sonha e também faz chorar. Depois de anos convivendo com a escrita, com as vírgulas e com todos os pontos finais, descobri que a literatura vale mesmo a pena quando ultrapassa os papéis. Que responsabilidade o Teatro carrega…

Poucos entendem a magia que há no teatro. Uma parte ainda menor entende a sensação de completude quando mãos, pés e palco tornam-se um só. Não precisa ser definida a incômoda e necessária cegueira que os holofotes provocam, nem é necessário definir a sintonia em que os aplausos e o coração adquirem quando vibram juntos.

Lembro-me de ter lido uma crônica certa vez de um autor que foi convidado para assistir a adaptação de sua própria obra em uma escola. No final da apresentação ele foi para casa escondendo sua própria frustração em ter visto algo que fugia das suas simples intenções de autor. “Não era nada daquilo que quis dizer”, lembro que ele escreveu. Quando decidimos adaptar algumas obras literárias, escolhi Franklin Cascaes. Escolhi-o pelo instinto catarinense que nos foi dado. Escolhi-o pelo amor à Ilha da Magia. Escolhi-o pela admiração às janelas junto às calçadas, tipicamente açorianas, fofas e delicadas a seu próprio modo. Escolhi-o pela simplicidade e, sobretudo, pela genialidade natural que se desenvolveu com as histórias sobre a Ilha dos Açores. Hesitei inúmeras vezes em minha adaptação, tentando inserir no teatro o que há de bom no teatro: a realidade.

De frente para a tela do computador, vi-me pincelar contemporaneidades a um gênio que nos deu a sorte de ter relatado histórias que hoje são tão ignoradas. Inseri bruxas barangas, piadas bestas, sotaques excessivos, doenças incomuns, músicas vazias e coisas pequenas; tudo para unir Desterro a minha conhecida e atual Florianópolis. Desculpa, Franklin.

Como escultores, todos esculpiram, em mil maneiras, suas próprias interpretações. O teatro uniu-se à literatura e a realidade surgiu na última segunda-feira, dia 2. Um dia completo de eufemismos sobre a morte relembrados no feriado trouxe ao palco criaturas cheias de vida, do naturalismo ao modernismo e mais além. Presentearam-me com expressões, risos, angústias e medos. Em “Várias Histórias”, lá estavam meus grandes amigos autores e atores, vestindo preto, esquecendo-se de si próprios para serem as criaturas mais machadianas, mais pessimistas e, acima de tudo, as mais vivas possíveis. O Realismo no palco do Século XXI. E você ainda está aí, agora convencido(a), embora tenha começado a ler esse texto achando que o Teatro era fácil. Pois é.

Não é preciso viver e conviver com o Teatro diariamente para reconhecer sua importância. Não preciso citar grandes obras memoráveis da literatura, de Shakespeare a Victor Hugo, para convencer alguém de que a arte caminha devagar com passos planejados e certeiros e que, por isso e por outras razões, deve ser valorizada. Unir literatura à realidade é um trabalho difícil que exige consciência da própria responsabilidade, respeito à obra e dedicação. O Teatro é crítica, é comédia, é amizade. O Teatro é a maneira mais sincera que uma pessoa encontrou de ser todo mundo. Seríamos incompletos se não fôssemos sortudos o bastante para ter criado algo tão mágico como a própria realidade. Dessa vez, porém, nos palcos.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

Texto dedicado à Família que, de mil jeitos diferentes, se encontra aqui.