Lilás

Sentei ao sol daquela manhã sentindo a brisa que quase sopra entre as ruas que quase se cruzam. O lilás pintava as ruas já no início da primavera, no céu das árvores altas e no chão. Vendo o céu azul colorir a imensidão lilás que me perseguia, desci as ruas, cruzando as esquinas que pintavam meus pensamentos. O barulho ecoava na cidade que, de tão grande, não era capaz de ouvir meus silêncios. Mas eu descia ainda assim, tentando entender aquele verso gente-demais-falando-demais-alto-demais-vamos-atrás-de-um-pouco-de-paz, pensando que ali no meio do lilás eu me lembraria das estrelas que aquela cidade grande não me deixava ver. E não via, por vezes adoecia, outras vezes doía, mas aquelas manhãs de sol compensavam. O vazio me aterrorizava e o sol calorosamente me erguia para as cores das árvores que coloriam aqueles cinzas tão bravamente. Eu pedi talvez por saudade ou por vontade ou por falta e medo do vazio. Pedi pelos versos que quase se escutam e por aqueles que quase se perdem. Pedi pelas poesias que quase se entendem e pela primavera de abril que aquele cinza desconhecia. Mas o Lilás estava lá colorindo e eu pedia. Insistia. Não vá embora.

 
Não vá. Não vá antes que eu entenda por que uns passam tanto frio e fome. Não vá antes que eu conheça aquela loja de música e compre um CD só pra me lembrar da magia das coisas que um dia já foram únicas. Por isso não vá antes que eu mostre a simplicidade das coisas únicas que quase nunca se compreendem porque os cinzas quase nunca não deixam ver. E, por favor, não vá embora antes que eu veja o Guaíba e tenha a sorte de entender o que Caio entendia. Não vá, Lilás, não ouse partir com tanta incompreensão daqueles que não compreendem sua forma de arte. Perdoe-os porque foi Quintana que disse que poesia não se entrega mesmo que você saiba que por trás das pétalas lilás que caem ao chão existe uma vida a ser descoberta. Uma vida a ser vivida.

 
Perdoe-me, Lilás, se por vezes eu te olhar demais e esquecer que poesia e medo são faces da mesma moeda. Insisto porque daqui te olho por alguns instantes desejando inconscientemente que alguém me veja ali parada e quem sabe um outro alguém também cheio de esperanças pare e olhe para o mesmo horizonte que o meu desejando que um outro alguém também perceba a clareza e a grandeza dos horizontes que quase nunca são vistos e quem sabe assim a gente poderia parar só por um instante para contemplar as coisas não vistas e perceber que o tempo já cantavam eles não para não para não para e daqui desse lado olhando pro Lilás a gente pede por tempo e o tempo às vezes a gente esquece que também está cheio de vida feito as pétalas lilás que caem pedindo implorando para que entendam que existe eu juro que existe vida pode acreditar eu sei que temos todo o tempo do mundo e canto e rezo porque sou feita de Lilás e horizontes já que aqui o sol me aquece porque se sou poesia também sou esperança porque posso jurar que por trás do cinza e dos sinos e das esquinas e do calor e dos que passam e dos que cantam e dos que lutam pelas vírgulas e dos versos e dos cantos e dos sonhos e de mim agora e depois e dessas pétalas que me dizem que por trás do Lilás que insiste em me ensinar eu acredito e posso jurar e jurarei que existe vida nas coisas simples, meu Deus, será que existe?

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

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