A Independência

Tinha os olhos mansos. Eram azuis, talvez verdes, notei dourados certa vez; não sabia o certo porque isso dependia se o dia estava querendo chover ou não. Não, não. O frio não importava. Ele ficava lá sentado observando a vida que passava mais rápido nos dias de semana. Não que a Independência fosse sempre rápida, não foi isso que quis dizer. Lá o movimento insistia em desaparecer quando a noite chegava, mas isso também não importava. Não para ele.

Julgas errado pensando que os dias são sempre os mesmos. Sentado lá, ele via que não. Porto Alegre avisava quando ia chover porque, justo antes da chuva, o ar ficava tão denso que o chão chorava e as senhoras logo fechavam as janelas mesmo sem o aviso do céu. Dizem que a culpa é do Guaíba. Hoje sei que quando se decide amar Porto Alegre, a gente se condena a saber quando a chuva vem. Ele sabia quando ia chover porque quando eu perguntava “você não tá com frio aí sentado?”, ele sorria porque nós dois sabíamos que não. Frio mesmo fazia nas pessoas que passavam por ali, viam-no sentado, de pernas e braços cruzados, vestindo um suéter marrom, os cabelos brancos para trás e aqueles olhos gentis (eu disse mansos?). Frio mesmo fazia quando os olhos azuis e verdes por trás dos óculos eram, imagine só, só olhos.

O chão não era frio porque tinha jogo do Inter ou porque, justo naquele espaço, entre um pilar e outro, entre uma escada e outra, entre um dia e outro, o sol aparecia na avenida e, lutando com todos aqueles prédios altos, decidia esquentar aquele ladinho do prédio em que ele sentava. Não era por causa disso que o chão não era frio. Também não era porque tinham reflorestado a Redenção, ou porque tinha chovido um dia antes, ou porque já era quase hora do café, ou porque a erva já estava na cuia esperando esse conto ser escrito pra ela poder se esfriar. O chão não era frio e eu não o compreendia. Também não compreendia a dança das árvores da Gonçalo que dançavam só por serem bonitas, nem o cinza de chuva da João Telles. O chão não era frio assim como a poesia também não é. E isso bastava.

É certo que, lá pelas 17h, os carros passam pela Independência sem saber que às 20h vai ter um show de rock ao lado, com as bandeirolas do nordeste, com os pratos de Minas e o lenço e bombacha pra vestir. Isso tudo porque, uma semana antes, gritaram pra Esquerda e na próxima semana gritariam pra Direita também. Chega nessa época e nem as avenidas mais bonitas ficam impunes à insatisfação. Ao meio dia tem teatro, e quem perder, que pena, só lê os cartazes. Deve existir uma lei maior que obriguem grandes avenidas a terem cartazes, porque era disso que a Independência se coloria. De um lado música, do outro poesia como se poesia fosse só uma coisa escrita nos postes. À noite ficava tão frio que bastava abrir as janelas para não querer sair, mas tem gente que saía. Eu hesitava porque os prédios escondem as estrelas de Porto Alegre, e sem elas nem o mais insano poderia se guiar. Imagino que seja por causa disso que ele sentava naquele chão quente. Sem estrelas, só restaria esperar. E ele esperava.

Passavam estudantes, mercedes, fuscas, casais, amigos, pássaros voavam e cachorros sentavam. Passava o dia, a frente fria, a música certa, o tempo e ele insistia. Passava a Cláudia, a Joana, o Alberto e certa vez o Rafael com a camisa do Grêmio pra ele fazer piada. Passava o empresário, o cronista, o amigo, o vizinho, o vestibulando, o que catava as latas na rua e o que ganhava pra ver a rua passar. Passava um, dois, quatro governos e os muros ficariam pichados, disso só ele sabia. Passavam setembros e novembros e ele cantaria “no meio do alvoroço tive um lenço no pescoço que foi bandeira pra mim” mesmo que só ele enxergasse a beleza daqueles versos. Passava a tempo, a Cláudia, a Joana e o Alberto e os pássaros voltavam, mas ele ficava. Ficava calorosamente e apaixonadamente vendo a vida passar. E, naquele momento, quando eu descobri os olhos azuisverdesdourados, percebi que o calor do chão era feito de vida. A vida que passava. A vida que ele via. A vida que ele escolhia viver.

E, sabiamente, vivia.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

Uma homenagem ao amigo de cabelos grisalhos e olhos gentis que vê a poesia de uma avenida. 

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