Poesia nos muros

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Foto: @anaclaraccosta

Faz muito tempo desde que decidi enxergar poesia pela primeira vez. Certa vez, também há muito tempo, escrevi que a poesia era como preparar a massa de um bolo, acalmá-la, pôr-lhe a fôrma e a forma, assá-la, enfeitá-la com uma cereja ao final. Isso porque achava, como Drummond, que as palavras estariam sempre esperando para serem escritas em algum lugar, inquietas, prontas para serem trazidas à vida, com ou sem cereja. Durante horas eu ficava divagando sobre a próxima receita, fantasiando que o escritor seria aquela criatura mágica dentro de uma bolha capaz de não só ver, mas enxergar; não só ouvir, mas escutar, e todas aquelas coisas que você sabe bem.

Vai ver eu e Drummond pensamos pouco sobre o assunto. Poesia vai bem mais além do que uma receita que dá água na boca e com certeza vai mais além do que palavras escondidas em um reino de palavras, esperando, e só.

Digo isso porque certa vez decidi olhar as paredes feitas de madeira e seus riscos feitos à mão, o concreto das avenidas, a luz dos postes, a sombra das árvores, o chão irregular, a tinta do papel contra a chuva, o segredo por trás das placas, os rabiscos nas lixeiras. De início meu pensamento foi algo banal do tipo quem-será-que-perde-tempo-colando-papel-pra-desmanchar-na-chuva, mas depois parei pra pensar em Saramago e aquele mantra: “se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. E reparei.

E é tão bom reparar em poesia.

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Mãos dadas – Carlos Drummond de Andrade

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Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

(Carlos Drummond de Andrade. Fonte)

O mantra

“Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, consolar sempre.”. Estava lá em letras gritantes, só para que todo mundo que olhasse pra cima pudesse ver. Hipócrates, disseram. Ao meu redor, como copos cheios d’água que quase transbordam, inúmeros profissionais da área médica olhavam as letras gigantes. Eu, não. Não bastou olhá-las. Li e reli, tentando compreender o mantra daquele que atribuímos, desde os primeiros dias da faculdade, o título de Pai da Medicina. Os copos de água sorriam, indiferentes: já reconheciam o mantra, sem lembrar do que seja um mantra. Por sorte ou azar – ainda não ousei definir – eu me lembrava.

De certa forma, antecipo-me e compreendo: quando a ciência se limita diante da doença, vem o consolo. Compreendo Hipócrates, agradeço, saio pela porta de fininho e o incômodo pousa no peito como uma lei. Volto meus ombros, suspiro porque sempre foi mais forte do que eu esse quê de “como?”, e me forço a caminhar até ele, me sento e suplico com um olhar gentil. Ele, é claro, me olha calmo e sorridente com aquela barba branca, com aquelas rugas no canto dos lábios e com aqueles olhos gregos gentis e me cita alguma frase que ele nem ousa dizer. Como consolar, eu perguntaria, se sou feita de poesia?

O senhor de pés cansados que atravessa a faixa da grande cidade com pressa. A criança que se cala porque dói, mas é que é tão difícil reconhecer quando dói se a dor não passa. O colo que não foi dado. A dor que não dá pra ser ignorada. O calafrio que não passa. A hora de ouro que perdeu a luta contra o tempo. A informação não compreendida. Mas também a ausência da informação. O vazio que se torna maior diante da espera. O medo diante da pressa em caminhar por um caminho que nunca vem. A fila de espera, o colchão no chão, o remédio incerto, a falta de luz, a falta de leito, a falta de mim, de ti, dele, a falta de um pouquinho a mais porque só um pouquinho ajudaria, a falta, a ausência, a Lava Jato, a cueca cheia de dinheiro. A fome vencida pela licitação da merenda. O saneamento básico contra um Duplex memorável. Vá devagar, imploro, suplico: pegue a minha mão, senhor. Seu pé dói, eu sei, não posso dizer que compreendo porque não sinto, mas se sentisse eu compreenderia, você sabe que sim. Vamos devagar, não nos afastemos, vamos de mãos dadas. Deixe as buzinas de lado. Deixe a pressa de lado. Console, ninguém está olhando. Console os taciturnos, nutridos de esperança. Console. Ninguém está ouvindo.

Não serei a cantora de uma história; para cantar, tenho mantras. Suspiro ao velhinho que me consola como se compreendesse. Serei poeta de um mundo caduco.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)

os nossos impossíveis – E.E. Cummings

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estou tão contente e muito
apenas um quarto de mim curará
o ser mais preguiçoso da fadiga
o mar mais intenso do litoral

tão longe chega a tua proximidade
um afortunado quinto de ti
transforma as pessoas em cadas
e os cobardes em crescer

os nossos impossíveis foram feitos para acontecer
os nossos íssimos extinguiram-se em mais
um vigésimo de nós haverá de
escancarar uma porta escancarada

somos tão ambos e singulares
a noite não consegue ser tão céu
o céu não consegue ser tão solífero
sou através de ti tão eu

(E.E. Cummings – Tradução por Vasco Gato)

O lutador – Carlos Drummond de Andrade

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Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entretanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor

me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

(Carlos Drummond de Andrade. Fonte)

Uma nota de quem não entende notas

Ouso dizer que quem já se sentiu Alegre, também, quase no mesmo instante, (re)conheceu a gratidão.

Leal e valorosa – e agora um pouco mais íntima dos meus (ou seriam teus?) lilases: eis aqui minha nota simples como tu a ti, que tão calorosamente e silenciosamente me ensinou a crescer.

José, posso jurar que há poesia nas coisas simples. Vou logo ali buscá-la e já volto pra te escrever.

O pinheiro: uma metáfora

  Havia um pinheiro de natal no meio do corredor. Fitou-o por alguns segundos. Me deixe falar do pinheiro, porque preciso dizer te dizer, José. Não havia nada demais nele porque nele havia tudo. Você diria que isso é mágico, mesmo que fosse triste, já que ninguém compreende os paradoxos mais incomuns. Mas me deixe, por favor, falar do pinheiro que havia no meio no caminho.

  O pinheiro, você deve saber, era verde como aquele que comprara certa vez. Lá estava ele, inquieto no meio do caminho, cheio de bolas coloridas e enfeites chamativos que nunca conseguira decorar o nome embora se esforçasse. Luzes cobriam-no por todas os seus ramos. Sorriu porque era assim que essas épocas costumavam ser: cheias de luzes. Tinha tanto brilho azul e dourado que conseguiu fitar as luzes que piscavam só por alguns instantes antes que resistisse à tentação de sentar em frente ao pinheiro azulverdedourado para observá-lo.

Sabia a magia que havia por trás dos pinheiros e por isso se lembrava de todos eles. Havia o que era pequeno demais para tantos enfeites. O que era vivo e verde demais – você teve um desses, imagino – para segurar brilhos como se fosse preciso algum. Se lembrou da aspereza das folhas e dos galhos pesados porque na época suas mãos ainda tentavam se acostumar com o fato de que no início toda poesia costuma ser assim. Se lembrava, mesmo depois de tanto tempo, da maciez dos algodões amassados, selecionados e enrolados, cuidadosamente colocados entre os galhos, mesmo que desse lado do hemisfério não nevasse. Fazer de conta, você sabe, sempre foi a questão mais importante. Se lembrava daquele outro gigante que era preciso ajuda para montá-lo e abri-lo de todas as formas que fosse permitido. Ficava na ponta do pé para colocar o anjinho sorridente naquela tentativa falha de compreender desde cedo que o longe nunca é assim tão longe, você me entende? Sei que sim.

Ela enfeitava o pinheiro com a paciência e o amor de uma artista, mas era a arte de se enrolar que adorava. Preenchendo seus pinheiros com o que fosse, preenchia e preenchia porque de certa forma preenchia-se. Preenchia-se de cartas que chegavam na botinha pendurada do lado de fora. Preenchia-se também das noites iluminadas que ajudou a enfeitar. Preenchia-se do calor que a noite costumava trazer com as estrelas, e do azul que a manhã trazia naquela cidade toda feita de luz. Preenchia-se sem saber que logo se transbordaria em saudade. Chegava sempre naquele momento mágico, pensou, em que se permitia olhar pro céu por horas na tentativa de encontrar as respostas porque dentro de si acreditava que existissem, sim, em algum lugar: deveriam existir. O que bastava era olhar pro céu e acreditar.

Acontece que, sentada em frente ao pinheiro azul no meio do caminho, tentando achar os segredos por trás daquele pinheiro que ainda desconhecia, descobriu nele um enfeite preso. Pausa. Se lembrou dos seus laços, dos seus algodões, dos seus bichinhos simpáticos, dos seus bonequinhos teatrais, das suas bolas coloridas cheias de brilho, dos pingentes, dos sinos. Conheceu muitos enfeites, mas nunca um enfeite preso. Levantou, triste, irritada, assustada, não saberia explicar aquele sentimento que não lera em lugar algum. Fugiu por temor ou incompreensão talvez, porque, naquele momento, não conseguiu ver um enfeite tão bonito preso em um pinheiro que brilhava de maneira tão urgente.

Não entendia sua fuga. Imagine só que absurdo: fugir por incompreensão. Não compreendia, José, mas é que doía feito cair de bicicleta a tentativa de entender por que é que alguns enfeites se escondiam. Aquele era tão belo quanto os algodões de que se lembrava. Aquele tinha tanto pra ensinar quanto as estrelas que pendurava. Havia tanta poesia nele quanto nas cartas que enviava. Incompreensão doía porque desse lado não havia estrelas, pensou. Doía, doía: estava ali o enfeite, preso, escondido, tentando brilhar, lutando contra os galhos que tapavam seus detalhes que já ameaçavam ceder à luta contra todo o verde. Alguns diziam que ele se escondia porque colocá-lo de maneira mais visível em frente aos ramos verdes era ignorar sua fragilidade. Outros diziam que, graças à beleza estonteante do pinheiro, pensar em um enfeite tão comum era perda de tempo. “Comum”, meu Deus, já leu palavra mais triste?

Era preciso ter fé no enfeite. Fé – tentou se lembrar – é pôr a semente no solo sem esperar o pinheiro nascer. A chuva caía e ela corria querendo se molhar. Correndo, sentia o ar dos seus pulmões, quentes e vivos, buscar a esperança. Procurou o caminho porque já o conhecia e foi correndocorrendocorrendocorrendocorrendocorrendo. Encontrou ali o enfeite escondido porque também se lembrava que entender poesia é condenar-se a enxergá-la. Desculpe, José, eu tento falar do pinheiro, mas o enfeite é quem me sufoca. O enfeite, ela via, era uma casinha branca dentro de um globo que nevava. Imaginava que lá dentro haveria chá e calor. Imaginava que haveria estrelas no céu e cartas mais felizes do que as que eu te escrevo já há tanto tempo. Imaginava que haveria versos além dos que já escrevia. Imaginava que se houvesse luz como havia em seu lar, também haveria a paz e o silêncio que há tanto pedia. Imaginava que aquele enfeite de natal, quem sabe, se escondia dentro do pinheiro porque era mais esperto que ela que tão credulamente tentava compreender. Se era frágil, e isso compreendia, não entendia porque também não seria belo.

E que era belo, José, isso ela sabia.

(Naély Pereira Covre – Minha autoria)